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“Existem dois tipos de mudança: a que nos acontece e a que fazemos acontecer.”

 

Estamos entrando numa nova era da história. Saindo de um modelo que não estava dando certo – entrando num outro que ainda está por mostrar a que veio, nos defrontamos com o mais alto grau de incerteza já vivido, inaugurado pela pandemia covid19. O contato da experiência humana com grandes rupturas como essa sempre definiu marcos históricos pontuados por começos e fins de eras.  Navegando no mar das incertezas, se ainda existe um vestígio de certeza, seria essa:  a de que dessa vez, temos que acertar nas escolhas, porque deverá ser a última chance que temos de seguir caminhando, mas diferente.

Dez anos antes da pandemia Covid19, o futurista paquistanês-britânico Ziaudin Sardar já tinha acenado em 2010 para um novo enquadramento teórico que define a aceleração dos tempos no artigo “Bem-vindos aos tempos pós-normais”, lastreado em pesquisas científicas desenvolvidas em 1993 pelos matemáticos Silvio Funtowicz e Jerry Ravetz. Nesse artigo, Sardar definiu a estrutura dos tempos que passou a chamar de “pós-normais”, pela observação de três fenômenos: complexidade, caos e contradição.  Essa estrutura passou a servir de base científica para estudar, compreender e criar futuros, especialmente a partir de fundamentos do futurismo – disciplina transdisciplinar que estuda as mudanças para se preparar, se antecipar a elas e criar futuros desejáveis – também conhecida por foresight ou prospectiva.

A teoria da pós-normalidade procura compreender a aceleração dos tempos, então definidos como pós-normais, e o que caracteriza esse momento da transição: “um período intermediário em que velhas ortodoxias estão morrendo, novas ainda precisam nascer e muito poucas coisas parecem fazer sentido” como Sardar define.

Uma bifurcação de eras, uma fenda no tempo, uma dobradiça histórica, uma macro transição (Ervin Laszlo, Macroshift), são alguns símbolos dessa mudança sem precedentes que chegou até a ofuscar a urgência das mudanças climáticas as quais vinham ganhando impulso entre as mais importantes preocupações na sociedade e nas diversas agendas institucionais desde a década de 70.

Nos últimos anos, o número de acontecimentos, imprevistos e crises que fundamentam a teoria dos tempos pós-normais cresceu rapidamente. A atual pandemia é um exemplo perfeito do pós-normal e a confluência dos 3 Cs:

  • Complexidade: considere a pluralidade de diversos elementos e interdependências dessa era pandêmica; passa a ficar cada vez mais difícil ter clareza de causas e efeitos, detectar conexões entre os sistemas
  • Caos: as diferenças geográficas, climáticas e infecciosas tornaram quase impossível a identificação de padrões da pandemia
  • Contradição: a globalização convive com a clausura, o distanciamento físico aumenta a aproximação social pela Internet, a liberdade individual simultânea com a vigilância social, entre outras.

Teorias da evolução explicam que sistemas complexos se movem em bifurcações como essa, e que os forçam a mudar sua trajetória (Haefner). O antigo não pode mais continuar como está – e nessa bifurcação (considerem definições correspondentes tais quais, macro transição, fenda histórica, dobradiça do tempo, ruptura) as mudanças se encaminham para uma pluralidade de futuros possíveis.  Nessa direção irrefreável, o novo mundo que está emergindo poderá dar um salto em relação ao que já está obsoleto.

Trocando em miúdos, estamos entre o que não é e o que ainda não é, frase que surgiu de uma conversa do jornalista italiano Ezio Mauro com o filósofo polonês Zygmunt Bauman e que sintetiza essa macro transição, cenário de altíssima instabilidade. Estamos, portanto, vivendo em “uma era de transição, um tempo sem a confiança de que podemos retornar a qualquer passado que conhecemos e sem confiança em qualquer caminho para um futuro desejável, atingível ou sustentável”.

A mudança mudou

A mudança de hoje não é a mudança de ontem em seus mecanismos, dinâmicas, padrões.  Uma série de questões na linha de frente de nossas mentes está efervescendo, desde o nosso cotidiano até as estruturas e a lógica sobre as quais nosso mundo foi construído, levando em conta a economia, a política, a cultura, as inovações tecnológicas e as relações sociais.

Estamos sentindo a mudança de uma forma mais avassaladora no que se refere a escalabilidade, profundidade, simultaneidade e alcance. A nossa própria noção de normalidade foi alterada por essa nova mudança – na tentativa de entender tudo o que aconteceu e está acontecendo. Desde o isolamento, o distanciamento, o negacionismo, as desinformações e o completo vazio diante de qualquer tipo de compreensão sobre o mundo.

Como futurista, desaconselho qualquer tipo de previsão, porque é bem provável que ela estará equivocada. Costumo estimular lideranças, gestores, empreendedores e indivíduos de diversas atuações a se deixarem fluir no fluxo da mudança, desde o seu começo, na conexão com seu emergir e daí soltar-se para o novo. Para isso é preciso trabalhar no desenvolvimento do imaginário, terreno que deve ser regado pela curiosidade e pela busca do que ainda desconhecemos.  Seremos capazes de conviver melhor com essa pós-normalidade e tentar não fazer colapsar nosso aparelho psíquico, se adquirirmos coragem para fazer existir o que ainda não existe e é através do imaginário que brotarão as sementes do novo.

O velho modelo que estamos deixando para trás (um velho moribundo tentando sobreviver na UTI da história) – foi naturalizado pelo que sabemos que sabemos e mais recentemente, nos últimos 40 anos, no apogeu da era do conhecimento, pelo que sabemos que não sabemos (a partir da busca de informações e desinformações em profusão). O novo modelo que está nascendo (um bebê ainda engatinhando), para ser embarcado na tonicidade da inovação sustentável, será pautado pelo que não sabemos que não sabemos.

Novo-normal ou anormal?

Aquilo que era antes nada tinha de normal. Então, isso o que estamos vivendo não pode ser um novo-normal. Se alguém ainda insiste no que julga ser normal e quer voltar a ele, então tem que ter em mente que esse “normal” foi fabricado pelo próprio sistema disfuncional, aquele que submeteu o ser humano à economia (e não ao contrário), que nos fez reféns das máquinas e das polaridades erráticas, que criou a maior desigualdade social da história, que assolou nossas vidas com violência e exclusão estruturais e que devastou os recursos da natureza.

Normal só se fosse para quem o criou, no espaço do poder e à margem das minorias. Esse modelo não somente não funcionou como também destruiu.

Por essas e outras disfunções que caracterizaram o século 20, é evidente que vivíamos numa “normose”. Essa seria a correta definição. O que é normose? É uma disfunção social que passa a normalizar aquilo que é patogênico e que nos leva à infelicidade e à perda de sentido no que fazemos.  É a naturalização do absurdo.

Adotando o olhar de um ET

Uma forma de entrar em contato com esses absurdos que passamos a normalizar é se colocar num papel de um extraterrestre. Suponha que um ET venha pela primeira vez ao planeta Terra encarregado pelos seus chefes alienígenas de fazer um estudo antropológico do que aqui iria encontrar; ele começa a achar tudo muito estranho. Entre as estranhezas apontadas, algumas que eu (se fosse esse ET) incluiria no meu relatório: gente indo para o trabalho enfrentando congestionamentos de horas dentro de uma máquina de quatro rodas com alto poder de velocidade, porém paralisada no trânsito, com espaço para umas 8 pessoas, mas com apenas um terráqueo na condução, respirando uma fumaça negra sem sair do lugar. Ou um estacionamento de um condomínio que ele vai visitar e nele se depara com uma porção de automóveis (as mesmas máquinas de quatro rodas que ele reportou na etnografia anterior) –  todos bem protegidos com um manto de lona, encerados e guardados sob o teto à prova de sol e chuva –  e na sequência, vai para a rua e vê inúmeros terráqueos desprotegidos, com frio, sem abrigo, ignorados em seu abandono. A próxima expedição é num edifício, ao entrar no elevador, as pessoas (que vivem sob o mesmo teto) olham para baixo para não se olharem e ao chegarem em casa mandam beijos e abraços em reuniões do zoom com gente do mundo inteiro.

São tantas as estranhezas como essas, que numa cuidadosa pesquisa etnográfica interplanetária, o relatório ficaria imenso.

Se você começa a adotar esse olhar de ET – que tem muito a ver com o olhar inocente das crianças – vai começar a achar estranho muitas coisas. Na sua organização, na sua comunidade, na sua escola, na sua casa, na sua vida.

A pós-normalidade veio para evidenciar essas estranhezas e coloca-las no mesmo palco das tragicomédias civilizatórias – sem intervalos nem cortinas.

Do progresso à disrupção

No século 18 tivemos a noção de progresso com o pensamento científico-iluminista.  No século 19 Charles Darwin e uma série de evolucionistas trouxeram a noção de evolução, no século 20 a partir do pós-guerra, passamos a entoar o mantra do crescimento que levou à exaustão ecológica e à exclusão social.

Onde estamos agora? O século 21 é o século da disrupção: do mais alto grau de imprevisibilidade e descontinuidade que a humanidade já viveu. No limiar de um novo modelo de desenvolvimento cuja lógica terá mais produção de bits (economia intangível) do que de átomos (produção de bens materiais). Para que haja qualquer chance de entrada bem sucedida nos novos modelos que estão por vir, será preciso romper com velhas estruturas e gerar transformações escaláveis como a própria crise que estamos vivendo.

O pós-Covid

O sociólogo português Boaventura Santos considera essa uma pandemia pedagógica, são várias as oportunidades de adquirirmos aprendizados existenciais e corrigir rotas. Talvez Covid19 seja apenas uma entre outras que virão, originárias de um mundo cada vez mais interdependente e arriscado.

Será que essa crise irá finalmente desencadear a motivação que precisamos para mudar?  As mudanças que poderemos fazer acontecer (a partir de nós) serão mais poderosas do que as mudanças que irão acontecer (a partir do mundo lá fora)?

Poderemos ir além das revoluções em série 4.0/5.0/6.0 ……? Não será a próxima revolução a X.0, a da grande virada?

O tempo para acertar nas escolhas está acabando e não poderemos mais errar.  Essa é a nossa grande (e talvez única) oportunidade de em vez de vítimas, sermos cocriadores do futuro que desejamos para nossas vidas e para os que virão depois de nós.

 

 

Rosa Alegria – Futurista profissional há 20 anos, reconhecida internacionalmente e pioneira em estudos do futuro no Brasil

rosaalegria@rosaalegria.com.br

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021

“O futuro é desordem.

Uma porta como esta se abriu apenas cinco ou seis vezes desde que nos tornamos “homo erectus”.

É o melhor tempo possível para estar vivo, quando quase tudo o que você pensou que sabia está errado.”

Tom Stoppard – na peça Arcadia, 1993.

 

O dicionário Houaiss define Futuro como “tempo que se segue ao presente” ou o “conjunto de fatos, acontecimentos relacionados a um tempo que há de vir; existência futura; destino, sorte”.

Desordem, por sua vez, está definida como “ausência de arrumação, falta de lógica, incoerência, desarmonia” ou também “uma ruptura da ordem, indisciplina com a ordem estabelecida”.

O Futuro, apesar de sempre ter sido objeto de curiosidade da humanidade, sempre foi visto como algo aterrorizante. Desde a Grécia Antiga é comum a busca por oráculos que possam antecipar os acontecimentos que estão por vir e evitar a desordem. As respostas eram dadas por pitonisas e adivinhos, mas os humanos sempre falhavam na interpretação. A desordem chegava de qualquer forma. Como naquela época, hoje é praticamente impossível prever o que virá, mas dá para tentar buscar algumas respostas e chegar perto de uma interpretação mais ou menos próxima da realidade.

Vivemos dias de mudança e transformação em quantidade, velocidade e impacto assustadores, exponenciais, uma aceleração absurda sem nenhuma aderência ao que foi vivido no mundo que conhecíamos.

Se falamos de uma existência futura e de um tempo que está por vir em total desordem, desarrumado e com falta de lógica, o dizemos com os olhos do passado, a partir das certezas que temos. E se você está angustiado ou preocupado em como lidar com tudo isso, o caminho é reordenar, construir uma nova disciplina baseada em uma nova lógica e a recomendação é começar com três importantes movimentos:

1 – Desapegar

É preciso abandonar a inércia, trocar a lente com que se enxerga o mundo, ressignificar tudo à nossa frente e iniciar uma mudança de dentro para fora. O primeiro passo é mexer no mindset, tão apegado que somos às crenças limitantes, fórmulas prontas e receitas antigas. Não há nada mais danoso do que dizer “aqui não funciona desse jeito”.

Nesse ambiente de volatilidade e incerteza, não adianta mais apostar em soluções antigas. Tudo o que passou já não responde aos desafios do presente, muito menos os do futuro. Não podemos nos apegar à lógica do passado, o mundo já se transformou. Nada se mantém estático – as turbulências continuarão a acontecer e serão cada vez maiores. Esse é o momento de olhar para o futuro e trazer de lá um repertório rico de ideias para aplicar no presente. Precisamos ter uma mente leve que nos permita trafegar pelos três tempos: o passado como uma referência, o futuro com seus insights para aplicar no presente. Como diz uma grande amiga, Rosa Alegria, “você precisa se preparar para olhar coisas que ainda ninguém viu”.

2 – Doar

Depois do desapego, é preciso viver a mudança trazida por ele e não resistir a um futuro cada vez mais presente na nossa rotina. Viver a mudança significa se doar, se entregar ao que está acontecendo de corpo e alma, se entregar ao outro. O estresse disruptivo pode e deve ser superado. Uma sociedade que aceita, confia e abraça a mudança é essencial para vivê-la na prática, sem ilusões e distorções. Confiança e fé que as coisas vão dar certo e que vamos encontrar uma solução.

3 – Descobrir

É preciso, então, desligar o cérebro reptiliano, que se defende e se protege, e afinar seu olhar para captar os sinais do futuro. Curiosidade é a característica mais importante para quem está interessado em prosperar.

Outra dica é sair da cadeira e investigar, procurar descobrir o que está acontecendo no seu entorno. Não dá para continuar a observar o mundo a partir da sua própria bolha ou da leitura de outros. É preciso ampliar o foco, conhecer novos lugares, conversar com pessoas diferentes e buscar outras visões. Só assim é possível a busca por novos sentidos, criando novos nexos e conexões, tornando o cérebro mais plástico do que elástico. Apesar das pressões e mudanças, precisamos ser plásticos mentalmente e resilientes emocionalmente.

Esse é o sentido de presença e urgência em que todos nós devemos operar.

Desapegar + Doar + Descobrir = fazer mais conexões entre a realidade interna e externa, não se deixar paralisar pelas crises e encontrar as oportunidades intrínsecas em cada situação. Assim, vamos eliminar ou neutralizar a complacência, os famosos anticorpos que resistem e emperram a nossa mudança.

O mundo foi colocado de ponta-cabeça. Agora, não é apenas um novo normal que se pede, é um rompimento absoluto com o velho. Temos que dimensionar o mal que já foi regra, para podermos avançar.

Não podemos simplesmente adaptar um sistema doente, é preciso mudá-lo. Para que seja algo melhor, depende de como vamos construir esse novo momento. Só não podemos voltar, andar para trás. O mundo como o conhecemos está se dissolvendo, nas palavras de Mattias Horx, futurista:

“No momento, muitas vezes me perguntam quando Corona “terminará” e quando tudo voltará ao normal. Minh é: nunca. Há momentos históricos em que o futuro muda de direção. Nós os chamamos de crises profundas. Esse tempo é agora. O mundo como o conhecemos está se dissolvendo. Mas por trás dele surge um novo mundo, cuja constituição podemos ao menos imaginar.”

Estamos nesse momento histórico, um momento único, em que poucas vezes a humanidade teve oportunidade de viver e poder mudar a direção das coisas. A pandemia da COVID-19 nos fez parar, para que pudéssemos reorganizar, arrumar as coisas que estavam fora do lugar.

Ailton Krenak, na obra O Amanhã Não Está à Venda, se refere a esse momento que estamos vivendo “como obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa. “Filho, silêncio.” A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: “Silêncio”.” Esse é também o significado do recolhimento.

É preciso abandonar a miopia provocada pela contínua negação do humano e fazer renascer uma reflexão sobre a própria forma de viver e sobre os caminhos para se garantir o respeito que cada indivíduo que compõe nossa sociedade merece. E só vamos alcançar isso ampliando a consciência sobre o que se faz, como se faz e o que resultamos.

Esse mundo novo pode vir a ser uma verdadeira muvuca, que, segundo o imortal e filólogo Antônio Houaiss significa “uma reunião de pessoas animadas e alegres”. É um mundo frenético, por vezes turbulento, mas para aqueles dispostos a abrir mão do controle, também pode ser leve e extremamente divertido.

Mas será que estamos preparados? Nosso modo de ver o mundo sustenta o entendimento desse ambiente? Estamos prontos para a muvuca desse mundo vuca? A resposta é: não temos muita alternativa, ou você se modela ou será modelado.

O mundo não vai mudar, ao contrário, a muvuca vai aumentar cada vez mais. O futuro é desordem.

Algumas dicas para se modelar, se adaptar e surfar nessa onda:

1. Olhe para o futuro, tenha uma visão e avance na direção dela. Vá se moldando e se adaptando no caminho, mas nunca perca a clareza do ponto aonde quer chegar. Tenha flexibilidade e saiba que pontes, desvios, atalhos, fazem parte da caminhada. A ordem é seguir com uma estrutura leve (avalie sua bagagem emocional e cognitiva) sempre se movimentando. Lembre-se: é menos importante a velocidade e mais importante o ritmo, a frequência e a direção desse movimento.

2. Olhe para o futuro, tenha uma visão e avance na direção dela. Vá se moldando e se adaptando no caminho, mas nunca perca a clareza do ponto aonde quer chegar. Tenha flexibilidade e saiba que pontes, desvios, atalhos, fazem parte da caminhada. A ordem é seguir com uma estrutura leve (avalie sua bagagem emocional e cognitiva) sempre se movimentando. Lembre-se: é menos importante a velocidade e mais importante o ritmo, a frequência e a direção desse movimento.

3. Em um ambiente de insegurança e incerteza, é natural sentirmos medo. Deixe o medo chegar, só não deixe ele te paralisar. Sinta o medo, não o esconda, minimize ou ignore. Certa vez ouvi o depoimento de uma nadadora de grandes travessias dizer: “eu tinha sempre duas alternativas, ir com o medo ou ficar com o medo, eu sempre escolhia a primeira, ir com o medo”. Vá adiante. Vá com o medo. Destrave, tire o freio e se coloque em movimento. Tenha confiança na sua escolha e direção.

4. Dialogue, converse, ouça outras perspectivas, amplie a visão, olhe para o lado, para fora, para dentro, olhe para cima e para baixo, olhe em todas as direções. Tenha a visão do todo e não só da parte, lembre-se que é preciso enxergar a floresta, não só as árvores. Compreenda e clarifique. Pense diferente. Pense em redes de colaboração, colabore e esteja conectado para seguir em frente

5. Se permita a viver na ambiguidade, com o contraditório, com o diferente, com as várias perspectivas. Ao invés de buscar o coerente e o convergente, viva o divergente. A vida é feita de diversidade. A natureza é diversa e multifacetada, se conecta e se integra em harmonia. Experimente e teste, prototipe-se. Não há caminhada sem tropeços, erros e aprendizados. Se reinvente, assuma os riscos e aprenda com os erros, erre rápido para poder corrigir depressa, evoluir e seguir. O ótimo é inimigo do bom.

Olhe o mundo VUCA não como um problema, mas como uma oportunidade, uma benção.

No meio da confusão, desorganização e tumulto, precisamos de uma aglomeração de pessoas leves, alegres, animadas, com ritmo e direção, cada vez mais conscientes do seu poder e do seu papel transformador.

A COVID-19 não é um fato isolado como as outras epidemias. É uma pandemia, dentro de um novo normal, extremamente desordenado, que nos obriga a nos reinventar como humanos, como sociedade, como organizações, como modelo de negócio, como nações.

A vida e a sociedade não serão mais as mesmas. A empresa onde trabalhamos não será a mesma. Você, assim como eu, não seremos mais os mesmos. Uma nova humanidade ressurgirá dessa desordem. O redesenho já começou.

 

Marco Ornellas – Consultor, Coach, Palestrante e Escritor. Pai e avô em constante aprendizagem e prototipagem

marco.ornellas@ornellas.com.br

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021

Falar de transformação digital é falar de gente, nunca de tecnologias, é falar sobre como as tecnologias exponenciais combinadas entre si podem mudar a feição da própria sociedade e sobre os benefícios que elas trazem às pessoas.

Tecnologias nunca foram uma finalidade em si, elas se esgotam, são meios pelos quais buscamos a melhoria da qualidade da vida humana, porém ao longo do tempo, o ser humano, pós 2ª. revolução industrial foi se transformando em máquinas insanas de alta produção, de roteirizações infindáveis, submetidos a processos monolíticos, cheios de hierarquias e de conhecimento fragmentado devido à presença de especialidades.

Na batida do capitalismo cruel, de se tirar tudo em curtíssimo espaço de tempo e suas exigências do curto prazo, pessoas foram sendo dizimadas pela pressão extrema que foi transformando pessoas em máquinas, que sistematicamente foram matando a criança interior em prol de jornadas incessantes de grande poder de produção, de pressões, muitas vezes agressões e muita exigência, mas não na Inteligência.

A felicidade, segundo o filósofo chinês Lao Tsé, poderia ser atingida tendo como modelo a natureza, do equilíbrio, da diversidade, da adversidade, da riqueza. Já Confúcio acreditava na felicidade devido à harmonia entre as pessoas.

Gradualmente no processo de transformação de pessoas em máquinas, a felicidade, um conceito tão necessário, mas tão intangível e tão buscado passou a ser algo difuso, num ambiente da felicidade idealizada que injustamente condenou os humanos à cederem aos encantos do TER em detrimento do SER.

Este processo transformou humanos em seres apáticos, tristes, sem vida, ansiosos, narcisistas, individualistas, para se dizer o mínimo. Os condenou a uma vida competitiva sem trégua, em um ambiente corrosivo, individualista, de sucessos repetidos obrigatórios e de remuneração pela competição. Algo completamente desprovido de sentido.

Muitas pessoas foram treinadas em suas educações de base a “serem alguém na vida”, conceito complicado quando se deve perguntar, afinal, o que é ser alguém na vida a não ser o fato de se ser somente e tão somente o que se é, de forma pura e inexorável. Utopia talvez, para muitos.

Amarras deveriam ser rompidas para que um respiro de sobrevivência pudesse aparecer. Não é tarefa fácil e invariavelmente, quando a crise bate à porta, aquele filme “B” passa na cabeça de muitos. O filme “B” sempre foi o plano “A” mesmo assim, pessoas não ouvem o chamado para a aventura, única propriedade dos heróis de fato, que colocam suas vidas acima de si próprios.

Pior. Muita gente ainda acredita que ser feliz é poder pagar boletos, em vida dedicada ao acumular bens, de ter mais que todos os outros, de construir raízes do ter, de impérios do acúmulo, gerado pelas pragas da vida moderna, como o capitalismo do excesso, da estetização do mundo, da sociedade individualista, da nova era dos extremos, de grande decepção, do efêmero, do cansaço e do burnout, da depressão.

As pessoas até podem ter muito, a crítica não está nisto em si, mas há uma fragilidade enorme na configuração do ser, porque o indivíduo hipermoderno é prudente, afetivo e relacional.

Ao mesmo tempo que tem impactos da profunda fragilização das personalidades, com pensamentos e esquemas sociais destrutivos que os levam ao declínio de forças interiores, ainda são submetidos ao abandono do coletivo, sendo rejeitado em muitos sistemas sociais, o que faz aparecer os sintomas psicossomáticos, distúrbios, depressão, vulnerabilidades e pânico.

Segundo o filósofo Gilles Lipovetsky, a hipermodernidade é resultante das incertezas e dos receios de uma sociedade angustiada com a liberdade de escolha proporcionada pela pós-modernidade e impactada violentamente pela aceleração mercantil, consumista, capitalista gerada pelos avanços tecnológicos e dos meios de comunicação de massa.

Obviamente os laços sociais verticais se perderam completamente dando lugar aos laços horizontais, levando pessoas inexoravelmente ao individualismo extremo, em processos altamente tecnológicos, altamente velozes, desregulamentado, narcisista gerando um ambiente, excessivo e hiperconsumista, gerado pela economia da atenção que gerou o capitalismo de excesso, do capitalismo de vigilância e do consumo pelo consumo.

Talvez os humanos tenham chegado no limite máximo da distensão do que é possível uma vez que não estão vendo muito sentido no que fazem, do que vivem ou do que deixam de viver e talvez também a ideia do Gilles Lipovestsky não tenha sido muito bem decupada, que é o vetor de que o luxo do futuro será o luxo do amor irrestrito pelas coisas que escolhemos fazer. Isto traz uma visão forte de centralidade no ser humano.

A tecnologia melhora substancialmente a vida. Em tempos de promessas da chegada da inteligência artificial sobre nossos sistemas há uma promessa de que grande parte do que os humanos faziam e dos roteiros que ele ainda executa, estava sob judice, justamente porque seres humanos tem uma adaptação biológica extremamente lenta.

Por outro lado, as perguntas se voltam para o fato de que humanos adoraram se parecer com máquinas obsoletas, máquinas ruins. Ora, as plataformas de simulação hoje podem chegar a 200 petaflops, são exatos 200 quatrilhões de cálculos por segundo! Com a evolução das plataformas pré-quânticas isto poderá chegar a 600 petaflop, serão então 600 quatrilhões de cálculos por segundo e como o universo não é estático, a aplicação do germaneno, material novo, mono atômico, da família do grafeno, que é 10 vezes mais rápido que o silício levará isto a uma plataforma de 6 mil petaflop, 6 mil quatrilhões de cálculos por segundo.

Onde estão as pessoas? Em jornadas insanas de dias e dias inteiros com a cara enterrada naquelas planilhas de excel que não fazem mais o menor sentido. Pior, quando chegam a alguma conclusão, levam tudo do excel para o powerpoint, as pragas do mundo corporativo moderno, e quando mostram os trabalhos para seus superiores, o máximo que tem é uma interjeição – “Muito bom, parabéns” acompanhado sempre de um pedido – o gráfico está ótimo mas você pode mudar a cor da bolinha?

Ora, pergunta-se como os humanos podem gostar disso, como eles se renderam a isto assim tão passivamente, como eles puderam concordar com isto, eles estão fazendo papel de um sensor que não custa mais que um real!

Usar humanos para produzir dados é um descalabro, algo totalmente inadequado para o mundo caótico que exige gestão de conhecimento rizomático, de grande profundidade e acurácia, inclusive do pensamento de que para vencer nestas eras de hipermudanças, é imperativo se aprender urgentemente uma nova competência, como antecipar o futuro com precisão, como diz exaustivamente o autor David Burrus.

Não só, há urgências em muitas outras áreas do pensamento, como o exercício do mindset digital, onde se observa que a linha do desenvolvimento das tecnologias já ultrapassou e muito os níveis de adaptabilidade humana e também que se vive em tempos de alta exponencialidade e obviamente tempos de enormes incertezas e grandes instabilidades, onde não se pode mais observar fatos novos sob a ótica de causa e efeito.

Com isto, com a possibilidade real de que plataformas tecnológicas poderão produzir poder de simulação que ultrapassa o poder de pensamento de todos os humanos juntos no planeta, sendo inclusive, demandado dispositivos para aumentar o poder de pensamento dos humanos.

Parece uma exorbitância? O Neuralink já está oferecido no mercado, um dispositivo intra-craniano, uma interface cérebro–computador implantável, um fitbit no crânio com pequenos fios, que poderá ter aplicação médica, facilitando o tratamento de doenças como depressão, perda de memória, convulsões, entre outras. Não obstante, sabe-se que há já uma enorme variedade de dispositivos implantáveis e vestíveis conectados à internet com diversas e variadas contribuições à vida humana.

Do ponto de vista da tecnologia chega a ser empolgante, mas ainda suas aplicações podem ser muito contestadas, há problemas éticos insolúveis nas fronteiras entre a tecnologia e a medicina, claro grande celeiro das questões éticas para com a sociedade.

Além de todos estes ângulos, ainda há dois ambientes a serem desenvolvidos, o mindset da disrupção uma vez que tudo que já se vivia na era pré-pandemia já se expressava de uma maneira diferente, em cenários de permanente ruptura e também o mindset do paradoxo, o cérebro humano não está treinado para ver a grande ambiguidade que estes ambientes promovem.

Não se pode competir com o enorme poder de cálculo que as soluções representam, então acidamente falando, a alta tecnologia joga o ser humano para o lugar que ele nunca deveria ter saído que é de sua condição estritamente humana.

Humanos e máquinas tem lugares diferentes neste jogo, cada um pode e deve contribuir com capacidades próprias, então na comparação simples, há somente duas coisas que humanos podem contribuir em um mundo cada vez mais caótico e anárquico, que é a ambiguidade e o pensamento crítico, nada mais.

Competir no futuro será um exercício bastante próprio de ser engajado e inspirado por pessoas, com contribuidores extremamentes proativos e adaptativos, voltados a moldar experiências emocionais totais e com grande significância.

Isto vai requer muito estudo no campo do design justamente por conta das questões dos mapas de significados entre as coisas. Profissionais do futuro são profissionais que olham o radar do futuro para que se possa contribuir com a modificação dos mapas de crenças da sociedade.

Profissionais do futuro tem capacidades diferentes, eles têm um conjunto de habilidades comprováveis como a alta influência, a alta autoridade sobre o que falam e fazem, enorme maturidade, são independentes, membros da nova GIG Economy, a sociedade dos profissionais independentes que querem trabalhar muito, mas que não querem empregos nunca mais.

Não obstante, sabem exatamente o que não querem, são independentes, extremamente apaixonados pelo que fazem, são ambidestros, conseguem aprender sozinhos e são os representantes do grande poder de aprender à frente por toda uma vida.

Esta categoria de profissionais, se é que se pode chamar assim, são aqueles que tiveram a lucidez de reunificar suas vidas. O viver, o trabalhar e o aprender são uma instância única. Ao longo do tempo pessoas criaram avatares delas mesmas, criando inclusive códigos de vestimenta, três personalidades apartadas que não fazem o menor sentido.

Uma visão indivisível da vida que proporciona o poder de se exercitar o propósito, que mora em um lugar muito profundo, porque é na raiz da própria existência onde mora o ethos, o ethos significa o modo de ser, o caráter de uma pessoa.

O radar do futuro aponta sobre o retorno das potencialidades humanas, como criatividade, paixão, pensamento antecipatório de mudanças, propósito muito claro, curiosidade, imaginação e o foco irrestrito no design centrado no ser humano.

Como posto pelo Keindanren, a Federação Japonesa de Negócios, no futuro, será requisitado aos humanos, imaginação para mudar o mundo e criatividade para materializar suas ideias.

A Sociedade 5.0 será a Sociedade da Imaginação e se tudo parecer um filme de ficção, então façamos ficção, o mundo precisará dela para colocar o planeta e as pessoas em primeiro lugar, conforme a recomendação urgente do Fórum Econômico Mundial.

Além de tudo o autor Gerd Leonhard lembra a todos que a pandemia representa um novo ciclo de renascimento, um novo giro, uma nova visão de colocar em exercício aquela palavra alemã que denota o espírito do tempo que é o Zeitgeist do nosso tempo, a reconstituição do habitat.

As batalhas da 5ª. revolução industrial, que representa a convergência homem/máquina, aponta para a luta pela igualdade, pela eliminação da desigualdade e da iniquidade, da ética, que já é considerada carbonizante e causticante devido ao ambiente panóptico extremamente ativo sobre a sociedade, transparência e responsabilidade social.

Não deveria parecer muito, uma vez que a visão é a de que a tecnologia promove abundância de absolutamente tudo. Com isto, é a hora do ser humano reestudar sua trajetória, tendo a coragem de atravessar o primeiro limiar e se compor dentro dos limites da diversidade e da nova inteligência compartilhada.

É tempo de alto protagonismo e de coragem, justamente como coloca o Josef Campbell, que o tesouro que se busca está sempre na caverna que você tem medo de entrar. Temos medo? Claro, esse medo não é paralisante, ele é mobilizador, portanto sejamos todos estoicos.

Se todos os grandes desafios de agora são desconhecidos, é porque vem do futuro, o passado não nos traz nenhum tipo de conforto, então, olhar para a frente, antecipar mudanças, nos traz a necessidade premente de pegar nossas vidas nas mãos e a ela dar um novo significado.

A única obrigação, de verdade para os humanos é ser tão simplesmente felizes. Nada mais além disto.

 

Carlos Piazza – Darwinista Digital e Futurista Certificado

Carlos.piazza@carlospiazzaconsultoria.com.br

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021

 

Escrever sobre Complexidade e as Novas Economias é antes de mais nada, não ter a pretensão e a ousadia de esgotar todo o entrelaçamento que existe entre estes temas. São muitos os insights que as economias emergentes nos trazem a respeito de impactos sociais, financeiros, emocionais, ambientais, físicos, espirituais e muito mais.

As Novas Economias buscam atuar nas dores e impactos negativos gerados até hoje pela forma como investimos e fazemos negócios. São práticas emergentes que procuram dar conta de novas formas de circular riqueza em nosso sistema econômico. Uma riqueza que esteja a serviço de diminuir desigualdades e cuidar da saúde do planeta. E isso significa, ter a coragem de romper com a ideia de que o lucro tem a exclusiva função de maximizar retorno ao acionista no curto prazo.

Isso significar dar ao lucro a sua função consciente de promover retorno a todos os stakeholders do negócio, além de gerar riquezas que atuem no bem-estar coletivo. Isso implica em ir muito além de um negócio próspero. Implica na coragem dos negócios assumirem um papel propositivo para uma sociedade próspera.

Cito aqui alguns movimentos que têm atuado com a disseminação e a educação para Novas Economias: Capitalismo Consciente, Sistema B, Economia Circular, Economia Donut, GameChangers, entre outros.

E por que isso é complexo?

Porque os caminhos não são óbvios. Conhecemos os resultados alcançados pelas ações feitas até hoje. Sabemos o que está bom e o que está ruim, o que queremos ver transformado. E isso exige observação, investigação, capacidade para colocar “o dedo na ferida”, e a intenção positiva de regenerar culturas, tanto das organizações quanto das famílias e das sociedades.

A intenção desse artigo então, é compartilhar alguns insights sobre como as Novas Economias tem colocado as complexidades em foco.

  1. A complexidade de praticar o Ganha-Ganha Exponencial das Novas Economias

Temos vivido um chamado a repensar o modelo de competição sobre o qual os negócios têm se baseado ao longo da história. Um modelo onde ganhar significa fazer o outro perder, e assim competimos pelos mesmos espaços, ao invés de competirmos contra aquilo que queremos e precisamos transformar no mundo.

Isso tem nos levado a ressignificar a competição, que na sua essência é sobre tornar os negócios mais eficientes e adaptáveis. Quando um negócio ou um individuo decide competir para não perder, as escolhas acabam sendo por controlar a concorrência e não por vencer os novos desafios impostos pela complexidade. Nessa escolha, pessoas e organizações entram em um verdadeiro embate consigo mesmas.

Isso me remete a um aprendizado que tive com os israelenses, idealizadores do FreshBiz Game, um serious game sobre Nova Economia que hoje represento no Brasil.

Ouvi deles: “Competição é um jogo para amadores. Colaboração é um jogo para empreendedores.” Onde empreender significa encontrar seu valor único e expressa-lo ao mundo – desapegar-se e ter coragem de se auto organizar para inovar. Assim todos ganham. Por outro lado, a escolha por apenas competir é a decisão de “não tirar os olhos do concorrente” para fazer um pouco melhor do que ele, a partir do melhor dele. E isso é amador.

É complexo pensar que seu competidor é um stakeholder do seu negócio. Mas, é real. Quando um competidor tem seu resultado deficitário, todo o segmento de clientes, fornecedores, funcionários e por consequência, toda sociedade perde.

  1. As Novas Economias e o propósito complexo de curar as dores do mundo

Podemos ter excelentes caminhos e objetivos pela frente, mas o que nos mobiliza a alcançá-los é um porque; um propósito que trará sentido a uma trilha de esforços. Sem um propósito, o que nos leva a enfrentar medos, reconhecer vulnerabilidades e superar resistências? O propósito que tem uma essência evolutiva é um propósito de cura. Um espaço para que pessoas e organizações assumam seu papel curador.

Afinal, como nos faz refletir Raj Sisodia em seu livro Empresas que Curam: se um negócio não estiver a serviço de curar uma dor mundo, então ele está a serviço de piorá-la. Não exercer o papel curador de um negócio, significa fazer a escolha oposta.

Mas, precisamos ir além:

Mais do que um propósito evolutivo, as Novas Economias exigem coragem para torná-lo público. É muito mais seguro nos comprometermos com receitas, vendas e expansão de negócios do que com impactos sociais, econômicos e ambientais prósperos. O que nos torna grande nem sempre nos torna consciente, mas nos torna famoso. Deparamos com um possível ego dentro de nós que, por medo de falhar, tem medo de assumir algo maior. Tornar o propósito público é permitir que sociedade seja parte vigilante desse propósito.

Mais do que um propósito evolutivo, as Novas Economias exigem humildade para torná-lo coletivo. Isso exige de nós assumirmos que colaborar não é simplesmente a predisposição em ajudar o outro. Isso é humanidade. Colaborar significa termos a capacidade de disponibilizar nossos recursos e talentos mesmo antes de se fazerem necessários, e assim, criar novos potenciais através da combinação dos meus com os seus talentos – o que chamamos do salto quântico da colaboração. Aqui, o ego, por medo de não ser o suficiente, pode preferir não pedir ajuda, e isso limita nosso potencial coletivo.

  1. O protagonismo individual já não é mais suficiente nas complexidades das Novas Economias

As Novas Economias são jornadas que exigem a consciência de que: se eu não me conheço e não acesso o meu valor, não é somente a mim que estou privando de evoluir, mas também toda uma sociedade que precisa dessa potencialidade coletiva para dar seus saltos.

Por isso, não cuidar da minha autonomia física; do meu controle emocional; do meu desapego intelectual e da minha abundância espiritual não é somente sobre mim, mas sim, sobre nós.

Ser ativo, propositivo e responsável passa a ser condição para um protagonismo coletivo, mas não o suficiente. A complexidade instalada exige uma capacidade de atenção, intenção e ação de muitos pontos de vista juntos. Um coletivo com energia suficiente para lidar com o imprevisível, o inesperado e combater as indiferenças humanas.

  1. Um repensar contínuo.

Se há algo conclusivo entre Novas Economias e Complexidade é a necessidade de uma regeneração em nossa forma de ver o mundo. E, isso nos leva a algumas perguntas essenciais, para as quais te faço o convite a refletir:

  • A sua saúde física e os cuidados prestados a ela ambicionam sua autonomia, bem-estar e vida com qualidade?
  • Você dá espaço a si mesmo para entrar em contato com suas emoções, permitindo que elas te mostrem suas necessidades?
  • Seus saberes estão disponíveis ao dar e receber, com humildade para ser mestre e aprendiz ao mesmo tempo?
  • O que rede de apoio, espiritualidade, pausas e silêncio significam pra você?

 

Graziela Merlina – Conselheira, investidora social, palestrante e facilitadora. Fotógrafa de almas

graziela@casamerlina.com.br

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021

Decidi aproveitar a oportunidade de escrever esse artigo para abordar a estrutura Cynefin e como ela pode ajudar ao processo de coaching e, também me aproximar de pessoas fascinantes que, em certa medida, foram meus tutores. Em essência, uma espécie de metajornada de treinamento em coaching usando a estrutura Cynefin como um mapa e uma ferramenta de navegação.

O tempo era uma restrição, de modo que só consegui reunir uma fração dos insights de um pequeno número de pessoas ao redor do mundo com quem tive a sorte de conviver. Deixo aqui meu agradecimento aos mestres que contribuíram com suas ideias e tempo: Dave Snowden, Anne Caspari, Johann Entz-von Zerssen, Chris Corrigan, Sean Esbjörn-Hargens, William Wandall, Nely Silvestre e Thiago Maciel.

A estrutura Cynefin foi concebida por Dave Snowden 21 anos atrás e é uma estrutura que ajuda a “fazer sentido” com base em um extenso corpo de pesquisa em torno da antrocomplexidade e das ciências naturais. Em suma, e para usar as palavras de Snowden, a estrutura nos ajuda a “entender melhor o mundo para que possamos agir nele”. Muito se evoluiu e provavelmente continuará evoluindo com base no Cynefin, pois ele traz insights sobre a dinâmica e a interação entre a geração dos entendimentos (sense-making) dedutiva, abdutiva e indutiva.

A estrutura Cynefin é dividida em 5 domínios, conforme mostrado na figura abaixo, Claro, Complicado, Complexo, Caótico e Confuso. As características dos sistemas e elementos em cada domínio, o tipo de práticas, suas restrições (ou falta delas) e como dar sentido e melhor responder aos desafios, bem como o espaço liminar entre eles, constituem os pontos de partida para compreender o Cynefin. Talvez mais importante, as características do domínio são a estrutura de suporte para melhores decisões. Cynefin ajuda na escolha de quais métodos ou abordagens devemos adotar para os desafios diários e os problemas complexos, bem como quando melhor mudar ou criar novos métodos em diversas áreas inclusive do Coaching.

O breve resumo na figura acima é apenas para instigar os curiosos a uma jornada mais robusta no livro recente Cynefin – Weaving Sense-Making into the Fabric of Our World do Dave Snowden. No restante deste artigo, examinarei o Coaching como um sistema inerentemente complexo, sua dinâmica, como ele se modula com outros aspectos de nossas vidas e, em última análise, não pode ser dividido em partes previsíveis. Sua semiestabilidade e, na melhor das situações, impulso para reaproveitar estruturas existentes por meio da experimentação tem sinergias próximas com muitos dos princípios de complexidade descritos por Cynefin.

A Complexidade do Processo de Coaching

Como Snowden frequentemente nos lembra, as únicas garantias que se podem obter ao interferir em um sistema complexo são as consequências não intencionais. Tanto o Coach quanto o Coachee simplesmente não conseguem ver todos os fatores em jogo e, como Entz-von Zerssen coloca, ambas as partes estão “constantemente nadando na complexidade”. Corrigan aponta que o Coachee é um sistema complexo funcionando dentro de um sistema complexo e, portanto, essa visão aninhada de sistemas dentro de sistemas, e nossa incapacidade de prever resultados neste domínio, devem sempre ser mantidas no centro da atenção durante qualquer momento de coaching. Maciel acrescenta a importância de sentir a “natureza das coisas” e a importância de tomar muito cuidado para evitar a criação de padrões, pois o que pode ter sustentado os clientes anteriormente não deve ser considerado uma melhor ou mesmo uma boa prática para os demais pois o Coach e o Coachee estão em constante estado de mudança, fluxo e emergência (percebendo isso ou não).

Em um processo de coaching, há nos Coachees um impulso para consertar ou resolver um problema aparente ou deficiência percebida que pode ser uma armadilha em si e, portanto, soluções ou consertos em sistemas complexos não devem ser almejados pelos Coachees ou prometidos pelos Coaches. Wandall também alerta para o risco de acreditarmos demais em nossa própria visão de mundo e, portanto, sugere continuamente “desiludir-se” dela. Da mesma forma, Esbjörn-Hargens adverte sobre os Coaches serem “cegos para seus próprios pontos cegos” e os riscos de prescrever a seus clientes coisas que funcionariam para eles, mas não necessariamente funcionariam bem para o Coachee. A pressa para encontrar uma solução, diagnóstico ou caminho também é uma atitude de alto risco praticada por muitos Coaches e Wandall enfatiza a importância de ficar por vezes “esperando na incerteza” ou em “um lugar de não saber”. Nesse momento, tente como Coach, excluir o máximo possível de antecedentes pessoais, evitando análises ou, pior ainda, categorizando as questões do Coachee. Silvestre chama isso de “espaço de silêncio”, onde a incerteza está associada à nossa limitada percepção da realidade e, portanto, a necessidade de despertar nossa humildade frente ao muito pouco que podemos realmente enxergar de qualquer sistema complexo.

O domínio central de Confusão do Cynefin é onde Caspari acredita que muitos clientes “chegam” no início dos processos de coaching. Suas dificuldades geralmente envolvem uma gama de incertezas, dificuldade em ver o momento em que se encontram ou a capacidade de assumir múltiplas perspectivas e, portanto, “sem mapa ou bússola”. Este lugar de confusão também pode ser bastante entorpecente, o que Caspari chama de “intenção travada”, e onde as coisas são difíceis de mudar de um espaço de desconhecimento, mas também desafiador para obter-se uma sensação de conexão com o emaranhado de outros contextos e ambientes em uma perspectiva mais sistêmica. Ela normalmente questiona “por que seu ambiente está respondendo a você dessa maneira?”

Wandall usa a metáfora de “espelhamento” com os clientes para que eles possam “fazer sentido” sozinhos, em vez de uma abordagem de orientações ou conselhos. Silvestre nos lembra da importância das restrições no contexto do coaching que estão vivas, possibilitando e restringindo mudanças que, por sua vez, evoluem ao longo do tempo tanto da perspectiva do Coach como do Coachee. Algumas dessas restrições habilitadoras, como a técnica de espelhamento, assumem a forma de perguntas que, sob certas condições, “vêm à mente” e surgem no contexto das sessões ajudando a mudar e impulsionar o processo como um todo. Um dos princípios da teoria da complexidade, que Snowden frequentemente menciona, é o da autoconsciência descritiva, em que você coloca as pessoas em posições nas quais elas podem ver as situações de maneira diferente por si mesmas.

Uma nova visão sobre Coaching é levantada por Snowden no que diz respeito a acessibilidade (affordance). Nesse sentido, acessibilidade é aquilo que é apresentado ou está disponível para o contexto dos Coachees. Se você está gerenciando um sistema complexo, é preciso estar bem ciente dos gradientes de energia, e se o custo de energia do comportamento desejável é menor do que o do comportamento indesejável. Do contrário, tanto o Coach quanto o Coachee enfrentarão uma batalha difícil. No entanto, Snowden é cético quanto a um processo de coaching individual conseguir alterar um gradiente de energia de um sistema inteiro.

Coaching para Complexidade

Os humanos são surpreendentemente bons em lidar com sistemas complexos. Como Snowden diz, na verdade estamos empenhados em operar neles o tempo todo, desde a vida familiar até a vida em comunidades. No entanto, as dificuldades além de nossa capacidade cognitiva, aumentam os níveis de estresse e o desejo de pedir ajuda e ser “carregado” através da tempestade é compreensível.

Ansiamos desesperadamente por uma saída do labirinto da incerteza e, assim, tendemos a cair na busca pela orientação de guias experientes, muitos dos quais afirmam conhecer a saída. Ficamos intrigados com as abordagens ordenadas e, portanto, os bullets são muito sedutores, mesmo quando isso não é possível em um sistema complexo. Ingenuamente seguimos e tentamos “Os 7 passos para a felicidade“, “As 10 regras da liderança de sucesso” e “O curso de transformação em 12 semanas” – um amontoado de coerências retrospectivas que explicam o sucesso passado para, em seguida, levar à esperança de que isso possa apontar resultados no futuro.

Corrigan concorda que existe a tentação de buscar soluções e, em vez disso, devemos nos esforçar para desenvolver a capacidade de perceber padrões emergentes. Silvestre acrescenta que a complexidade reside no Coach, no Coachee e no contexto das próprias sessões, enquanto Caspari destaca a reflexão sobre uma direção desejada e o processo que se vincula à nossa busca de maior compreensão. Maciel também apoia este conceito, e enfatiza a importância de que a direção, às vezes, pode se tornar enraizada no Coach ou no Coachee, e o valor em permanecer-se flexível para ajustar o curso e ser capaz de “dobrar como bambu sob uma forte rajada de vento”.

Da mesma forma que trabalhamos com sistemas complexos nas organizações, as mudanças podem ocorrer criando “mais histórias como as que queremos mais e menos histórias como as que queremos menos”. Snowden menciona a eficácia de usar essa abordagem para apresentar aos executivos histórias negativas ou críticas que foram escritas sobre eles por colegas e, em seguida, perguntar o que eles poderiam fazer para evitar que histórias como essas sejam contadas no futuro ou, inversamente, para gerar histórias positivas mais frequentes.

Snowden está expandindo seu trabalho e pesquisa recentes sobre ações em trios ao invés de práticas um-a-um, mais tradicionais, onde um grupo diversificado de três pessoas se engaja, como, por exemplo, um executivo sênior, um aprendiz e um cliente que recebem tarefas para fazerem juntos em contextos e perspectivas variados, mas não necessariamente relacionados a qualquer desafio específico. Os resultados têm sido muito positivos e o surgimento da autoconsciência descritiva é mais eficaz do que as abordagens mais tradicionais. Os trios começam a se entender e a captar novas perspectivas de maneiras inéditas.

Conclusões

Snowden nos alerta para o fato de que treinamos toda uma geração de líderes para serem insensíveis ao presente e totalmente focados no futuro. Não devemos nos surpreender que a incerteza que vem dessa mentalidade seja profundamente desconfortável. E assim, como líderes e cidadãos engajados, precisamos desesperadamente nos tornar mais sensíveis ao presente. Silvestre nos lembra o poder dos momentos “ah-ha” ou momentos de clareza onde “algo acontece” tanto com o Coach quanto com o Coachee. Este “algo” inesperado, e usando a terminologia Cynefin, talvez um momento de exaptação onde a possibilidade de recombinar pensamentos, perspectivas e contextos existentes, pode levar a uma nova direção, a uma disposição diferente ou mesmo a uma mudança em relação ao gradiente de energia em todo o sistema. “Carregar” e apoiar uns aos outros é inerentemente humano e, portanto, o Coaching provavelmente veio para ficar. No entanto, a compreensão e a prática dessa atividade são tão complexas quanto os desafios que ela afirma apoiar. A consciência desse emaranhado e de suas propriedades não apenas fortalecerá o Coach, mas também será de grande utilidade para aqueles que precisam do seu apoio quando se aventuram ou se encontram presos a desafios intratáveis de nossos tempos.

 

Ian Macdonald – Consultor, Coach, e Facilitador em sistemas adaptativos complexos

ian.macdonald@cognitive-edge.com

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021

A pandemia deixou claro como nossos símbolos de valor são frágeis, temos visto tudo desabando rapidamente, mas esse tipo de instabilidade tornou-se parte da nossa rotina.  O mundo VUCA foi superado, a discussão é de um mundo BANI, percebido como Frágil (Brittle), Ansioso (Anxious), Não-linear (Nonlinear) e Incompreensível (Incomprehensible). Tentar controlar, interpretar ou evitar a instabilidade não é mais possível. O grande diferencial de um profissional é saber reagir àquilo que se apresenta.

Podemos pensar em exemplos de empresas que tiveram bons resultados durante a pandemia, usando as oportunidades para crescimentos bastante significativos. Esses exemplos se aplicam também aos indivíduos a frente dessas empresas, Jeff Bezos e Amazon são um bom exemplo. Mas seria enganoso acreditar que isso é o padrão, e talvez seja enganoso acreditar que existe o mundo, ou o sistema em que estamos, possibilita o de crescimento contínuo, ou que todo o esforço é valorizado e que todos tem acesso as mesmas oportunidades. A realidade é que exemplos desse tipo de grande empresa são exceções, ao contrário do que gostaríamos de pensar. Não quero dizer que não devemos procurá-lo, mas ele não pode ser o único objeto de nossa atenção. Nosso único foco, nosso único propósito.

São tempos turbulentos de fato, ou só o contexto atual trouxe à tona o quão frágil é nossa condição humana? Conseguimos atribuir todos as dificuldades à pandemia, ou nosso mundo se tornou turbulento a ponto de não percebermos mais possibilidades de equilíbrio? Proponho levar adiante o desafio proposto, diria que o grande diferencial competitivo é manter-se são nesse mundo.

“Ao longo dos anos, ouvindo pessoas de todas as esferas da vida falarem sobre o estresse que experienciam quando enfrentam o sofrimento de outras pessoas, aprendi muito sobre os desafios de ser professor, enfermeira, médico, advogado, mãe, ativista, político, ambientalista, assistente humanitário e CEO – todos que enfrentam dificuldades e sofrimentos de outras pessoas diariamente.” Standing at the Edge, Joan Halifax

As pesquisas sobre neuroplasticidade sugerem que circuitos cerebrais podem ser reforçados ou eliminados através da repetição ou falta de estímulos, possibilitando a transformação da mente, ao reorganizar funcionalmente o cérebro como resposta a estímulos internos e externos. Em 2000 o encontro do Mind And Life Institute discutiu as “Emoções Destrutivas”. Um dos resultados dessa discussão foi a criação do programa Cultivating Emotional Balance (CEB), foi desenvolvido por Paul Ekman – psicólogo que por décadas dedicou-se ao estudo das emoções – e Alan Wallace – físico e estudioso das tradições meditativa. Partindo da neuroplasticidade, a intenção principal do CEB é oferecer recursos para cultivar níveis cada vez maiores de bem-estar emocional.

A primeira questão que precisamos levantar é: o que acreditamos ser felicidade?

Os elementos geralmente citados como “sucesso pessoal- e me sinto confortável em extrapolar o termo para felicidade – são: relações benéficas, alegria, equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, uma vida de significado e sem arrependimentos, e por último sucesso financeiro.

Como sugeriu Annie Mackee no artigo “Happiness Traps: How We Sabotage Ourselves at Work”, nos deparamos com algumas armadilhas. São elas ambição, aquilo que deveríamos fazer e o excesso de trabalho. Eu acrescentaria um resumo das três: uma percepção distorcida do que é a felicidade.

A ambição: a busca por metas, pelos objetivos da empresa e pelo crescimento profissional certamente nos leva a procurar dar nosso melhor. Entretanto, quando esse tipo de busca se torna excessivamente competitiva ficamos cegos para o impacto das nossas ações, nossas relações (tanto pessoais quanto profissionais) ficam prejudicadas.

A autora continua a discutir que outra armadilha é aquela de o que deveríamos fazer. Certamente agir de forma polida, e virtuosa, completar uma educação formal, pontualidade, empenho faz parte da construção da nossa carreira. Mas há certas coisas dentro de um ambiente de trabalho que nos forçam a negar quem somos, e tomar decisões que terminam por minar nosso potencial e enrijecer nossos sonhos.

A armadilha do excesso de trabalho é resultado da pressão de passar todo o tempo trabalhando, ou pensando em trabalho. “Trabalhe, enquanto eles se divertem”, não? E talvez o principal atrativo do excesso de trabalho é de que ele vem disfarçado de empenho, e conforme a carreira se desenvolve e o ritmo de trabalho muda fica cada vez mais fácil achar que excesso de trabalho é igual a produtividade. Mercados mais competitivos nos obrigam a fazer mais com menos, reuniões virtuais fora do horário usual viraram rotina e com o celular conduzindo nossa rotina ficamos reféns do trabalho, onde quer que estejamos.

Controlados pelo nosso ego, pensamos apenas em nosso sucesso, enquanto perseguimos a derrota alheia. Trabalhamos com uma proposta de um jogo finito, encontramos adversários e com frequência condicionamos nosso sucesso ao fracasso deles. Essa mente alucinada e ansiosa concebe as perfeições do nosso mundo como se fossem um refúgio. Equilíbrio emocional não é a mesma coisa que o clássico número de circo, equilibrando cada vez mais pratos até que comecem a cair, ou que sejamos nós a cair. Acumulamos cada vez mais metas, pois acreditamos que, seja no trabalho ou na vida pessoal, elas nos trarão felicidade. Essa felicidade vem sempre condicionada a um estímulo externo é chamada de felicidade hedônica. Uma promoção de carreira, um bônus, um carro novo. O término de um curso, um mestrado, um doutorado, um diploma. Uma namorada, uma esposa, um filho, um divórcio. Achamos que toda vez que obtivermos algum estímulo externo seremos felizes.

Seria ingênuo pensar que atender nossas necessidades básicas (alimentação, abrigo, estudo, e cuidados médicos) de forma adequada não é um ponto de partida para a felicidade, mas é isso, apenas o ponto de partida. Não podemos confundi-la com nosso real propósito. Enquanto buscamos felicidade através da obtenção de estímulos externos ficamos presos no looping de alcançar um objetivo e obtemos uma sensação de alegria, que infelizmente não se sustenta. Por isso saímos a buscar o próximo estímulo que supostamente nos fará feliz. A forma como essa “esteira hedônica” nos mantem infelizes, é muito bem retratada no curta Happiness, de Steve Cutts. No contexto de um mundo em constante transformação, com objetivos e metas se tornam cada vez mais frágeis, é fácil entender as pessoas perderem a sensação de propósito nesse jogo.

A perda de sensação de propósito é uma das características do burnout, que somadas a despersonalização (ou cinismo) e a exaustão emocional completam a descrição do resultado de stress ocupacional continuado.

O contraponto que Aristóteles sugere a felicidade hedônica é o conceito de felicidade eudamonica, que pode ser descrita como uma felicidade que deriva das qualidades que trazemos ao mundo, e que não vai diminuir quanto mais for experenciada. Não temos adversários, a busca vai além do solipsismo, do crescimento individual. O propósito é o florescimento humano, encontrado através das qualidades que trazemos ao mundo.

Aqui não basta uma mudança de perspectiva. Não é suficiente olhar apenas o indivíduo quando falamos de desequilíbrio e burnout. Não é suficiente culparmos a vítima por “não ter resiliência suficiente”, não pausar o suficiente, não fazer Yoga, não praticar mindfullness. Não é suficiente obrigar o indivíduo a fazer pausas, tirar férias, fazer academia e meditar. Não podemos e não devemos usar esses métodos para transformar a nós mesmos e nossos colegas de trabalho em engrenagens mais eficientes para o sistema.

O burnout raramente é um fenômeno individual, preveni-lo requer um olhar mais amplo para o contexto e, portanto, liderança. Compreender os sintomas de burnout e implementar estratégias de recuperação e prevenção podem auxiliar a criação de uma carreira sustentável que auxilie o encontro de saúde e felicidade em sua vida. Uma proposta coerente envolve mudar a perspectiva e modificar o contexto, tornando os ambientes de trabalho mais humanizados, praticando empatia e compaixão, trazendo à tona nossa humanidade em comum de maneira transparente.

Líderes que cuidam de seus colaboradores, oferecendo a eles as escolhas sobre quais suas metas, quais seus objetivos de trabalho e vida pessoal, mantém uma maior satisfação em ambos os campos. O primeiro passo talvez seja apoiar a equipe, observar sinais de exaustão, falta de atenção, humor deprimido, hostilidade e expressões de raiva e falta de esperança.

Para tanto é necessário a construção de uma comunidade, não tolerando desrespeito e estimulando um comportamento compassivo e encorajando o apoio dentro do time.

Fomos condicionados a esconder tudo aquilo que acreditamos nos fazer parecer vulneráveis, seguimos todas as regras para que sejamos percebidos como vencedores. Entretanto esse movimento cria uma dissociação entre a fachada do trabalho e o indivíduo, que por vezes tem dificuldades em casa ou no relacionamento, burnout e depressão, e eventualmente uma desconexão entre a missão da empresa e o que realmente se faz. Encoraje as pessoas a dividir o que está ocorrendo em suas vidas fora do trabalho. O mesmo deve ser aplicado quando observamos uma piora de performance dentro do time: tentamos entender a perspectiva da pessoa por trás da performance. Há alguma causa pessoal?  Ou será que a causa das dificuldades do sofrimento da pessoa… somos nós? Nossa postura como colegas? A cobrança de resultados e desempenho é salutar se vier acompanhada de oportunidades e apoio para desenvolvimento. Se não olharmos para as pessoas além das metas, o trabalho perderá gradualmente seu propósito.

Proteja seu time de pressões externas, incluindo demandas de clientes descabidas, e defenda os recursos que seu time precisa. Insista no descanso, lembre-se que o excesso de trabalho diminui a performance. Discuta com sua equipe hobbies, estimule a prática de atividade física e o autocuidado. Dedique tempo para ouvir os colegas de trabalho. Se aquilo que prestamos atenção, momento a momento é nossa realidade, oferecer atenção de qualidade permite a construção de parcerias significativas, e a tomada de perspectiva dos colegas sustenta tomadas de conclusões coesas com a equipe. Essa atenção deve se estender ao ambiente fora do trabalho. Cuidados com nossos cônjuges e filhos, cuidado com nossa saúde merece atenção, no mínimo (para aqueles que tem isso como única meta) para que possamos trabalhar melhor, mas em última análise é o que vai nos levar mais próximo a uma vida mais plena.

A pergunta aqui é, qual você acredita ser seu propósito? O que realmente te dá prazer na vida? Qual o melhor que você pode oferecer ao mundo?

Não acredito na resposta fácil de trabalhar com o que amamos e para que não trabalharemos nenhum dia da nossa vida. Se seus valores não estiverem alinhados com a empresa em que trabalha, com seu chefe e seus pares, não creio que haja qualquer possibilidade de se sentir satisfeito com o que se faz.

 

Lucas Guimarães – Gerente Médico do BP Vital – Beneficência Portuguesa de São Paulo

guimaraes74@gmail.com

Artigo publicado na Revista Coaching Brasil – Edição #92 – Complexidade – Janeiro 2021