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UNICÓRNIOS MONOCROMÁTICOS

Escrito por Marco Ornellas

Você pode não acreditar, mas Unicórnios e Homens Brancos Heterossexuais têm uma relação bem próxima. Unicórnios, no caso, como são conhecidas as startups que ultrapassam o valor de um bilhão de dólares. Homens Brancos Heterossexuais são, na sua maioria absoluta, os donos desses Unicórnios.

Existem exceções, é claro, como Cristina Junqueira, uma mulher CEO do Nubank, ou Robson Privado, um homem negro e COO e Co-founder do MadeiraMadeira.

Mas não vamos muito além disso e esse cenário precisa mudar.

Isso é preocupante porque traduz uma realidade que pode ser encontrada em qualquer startup, organizações que, em tese, deveriam ter mais flexibilidade e diversidade. Por isso, poderiam se tornar mais identificadas e representadas com um mundo mais inclusivo, mas claro que não é o que acontece e a questão dos unicórnios é só a ponta do iceberg.

Segundo uma pesquisa recente da Associação Brasileira de Startups, feita com 2,5 mil de seus membros, o que existe abaixo dessa superfície não é muito melhor, em um cenário dominado apenas de boas intenções, já que quando a questão é apoio à diversidade, 96,8% das empresas respondem positivamente. Deve ser interessante ouvir os argumentos dos outros 3,2%, mas isso é uma outra história e quem sabe um outro artigo.

Se 96,8% apoiam a diversidade, é de se esperar que 96,8% das empresas sejam diversas, raciocínio lógico, não? Não exatamente, já que 60,7% dessas empresas não têm nenhum tipo de processo seletivo que busca incluir grupos minoritários e as consequências se refletem no quadro de funcionários. Entre elas, 31,2% não têm nenhum funcionário preto ou pardo. Nenhum funcionário e nenhuma funcionária. Por falar em mulheres, elas também são como unicórnios na vida real para 19,1% das empresas: simplesmente não existem.

Mulheres negras, por essa lógica, são duplamente excluídas.

É sempre bom lembrar que estamos falando de grupos minoritários que são a maioria da população brasileira, já que, tanto mulheres como pessoas negras ou pardas, são grupos que compõem mais de 50% dos habitantes do país.

Se passarmos para outros grupos, tudo piora. Startups sem idosos, são 62,3% do total; sem PCDs, são 90,3%; sem transsexuais, são 90%.

E aqui sempre cabe aquele exercício de levantar os olhos dessa tela e olhar ao seu redor, dentro da sua empresa: estes grupos minoritários estão representados à sua volta ou em outros departamentos?

Provavelmente não, né?

A pesquisa também traz o perfil dos fundadores de startups: 78,1% são Homens, 92,1 são Heterossexuais, 51,1% são Pardos e 33,7% Brancos e 45% tem entre 31 e 40 anos.

A boa notícia é que as pesquisas indicam que startups dirigidas por pessoas negras ou mulheres tendem a ser mais diversas. A má é que, como dá pra ver no perfil acima, só existe uma boa representatividade de pessoas autodeclaradas pardas, o que está longe de mexer nessa balança, se falamos dos outros indicadores.

Mas o que pode fazer diferença?

O que pode transformar as boas intenções de 96,8% das empresas em ações de fato?

Segundo a pesquisa Getting to Equal 2019: Creating a Culture That Drives Innovation, realizada pela Accenture, investir em diversidade e inclusão torna as empresas mais inovadoras. E isso faz total sentido. Usando aquela já velha imagem do “pensar fora da caixa”, como isso é possível se estamos sempre recorrendo a ideias de pessoas com os mesmos repertórios? Que pensam da mesma forma e participam da mesma bolha?

Esse estudo também traz outros dados:

  • A cultura de inovação é maior em empresas mais igualitárias;
  • Colaboradores de empresas mais inclusivas não veem barreiras para inovar;
  • Colaboradores de empresas mais igualitárias têm menos medo de errar;
  • Diversidade e inclusão são mais relevantes para gerar inovação do que aumentos de salário.

Com tudo isso em mente, nota-se uma longa estrada pela frente e enormes oportunidades para sermos mais diversos e, consequentemente, mais inovadores. Corporações mais diversas têm muito mais chance de se tornarem inovadoras. Representam mais a sociedade, são mais conscientes e assumem compromissos e engajamentos maiores com o entorno e as causas sociais.

É urgente mudarmos a nossa realidade, não só por que é moralmente necessário, para que injustiças históricas sejam reparadas e preconceitos pré-históricos superados, mas por que inclusão é o melhor caminho para a inovação, para uma mudança positiva da sociedade e para a construção de um mundo melhor.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da Ornellas Community