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O OUTRO LADO DO HOME OFFICE

escrito por Marco Ornellas

No último artigo, abordamos a percepção de que a pandemia colocou o modelo de Home Office à prova, alcançando um saldo geral muito positivo. A partir desses resultados, surgiu o movimento de muitas empresas pensarem em adotarem o trabalho remoto de forma definitiva. Agora, nesse momento em que essas decisões estão sendo tomadas, a grande pergunta que fica é: todas as vantagens apresentadas até aqui vão se sustentar no longo prazo? Para pensar um pouco sobre esta questão, vamos ver o que já sabemos que o Home Office traz de questões não tão positivas. E começando pelo básico, vamos pensar em conexão. Como é uma característica da sociedade contemporânea, todo avanço tecnológico sempre deixa ainda mais clara a questão da desigualdade e com o Home Office não é diferente. O fator básico para a sua implantação é que o colaborador tenha uma internet de qualidade em sua casa. Nós, que vivemos nos grandes centros, temos a impressão de que a conexão de banda larga é uma realidade universal, mas olhando os números vemos que não é bem assim. 74% dos brasileiros acessaram a internet pelo menos uma vez nos últimos três meses, enquanto outros 26% continuam desconectados. Esses são dados de um estudo do Centro Regional para o Desenvolvimento de Estudos sobre a Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, realizado em maio deste ano. A princípio, parecem números até que bons, mas se incluirmos dados que a pesquisa não traz, como qualidade da conexão e acesso real a ela, os números certamente cairiam. Dentro destes 74%, vamos encontrar muitas pessoas usando planos de dados limitados em seus celulares, que não duram o mês inteiro, e outras ainda recorrem a acessos em locais como bibliotecas e Lan Houses. Por outro lado, o número de provedores regionais de acesso à Internet disparou durante a pandemia. Esta deve ser uma tendência que tem possibilidade de resolver o problema, com pequenas empresas oferecendo acesso de qualidade com preços competitivos. Pelo menos, até que o projeto Starlink, do bilionário Elon Musk, não entre em atividade. Atualmente, ele conta com 700 satélites em órbita, oferecendo internet de 100 Mb/s (megabits por segundo), mas ainda em fase de testes. O objetivo é chegar a pelo menos 12 mil satélites em órbita, com velocidade de 1 Gb/s (gigabit por segundo) para o mundo todo, alcançando mesmo as regiões mais remotas. Ainda não há informações de quanto isso vai custar ou de quando vai estar em pleno funcionamento, por isso, o jeito é aguardar. E temos também a Zoom fatigue, termo criado para o cansaço gerado por excesso de videoconferências. O principal sintoma, além do cansaço em si, é a dor de cabeça. Ela aparece especialmente na região central da testa, responsável pelo funcionamento da parte cognitiva do cérebro, mais exigida durante a atividade. Também são característicos o ressecamento e a irritação dos olhos, assim como dores musculares. A solução aqui é diminuir as videochamadas, com as equipes se valendo mais de mensagens de áudio e e-mails, deixando as videochamadas para quando forem mesmo indispensáveis. Talvez o excesso delas esteja mais ligado a uma insegurança dos gestores, que se utilizam da ferramenta para estarem mais presentes junto aos funcionários. E quando é esse o caso, é preciso que a postura seja reavaliada, levando-se em conta especialmente os dados de produtividade. Mas aqui entramos em uma questão séria e bem mais difícil de resolver: a falta de contato presencial entre os colaboradores. Lembro que em 2017, em uma visita à IBM em Nova York, eles estavam fazendo o movimento de trazer para a empresa as pessoas que trabalhavam em Home Office, com a justificativa de que as interações pessoais e o trabalho em equipe presencial aumentam a inovação e uma cultura de diálogo e aprendizagem. Sabemos que a interação pode ser fundamental para as atividades de uma empresa, criando momentos onde grandes ideias surgem ou são desenvolvidas. Toda inovação pressupõe troca, compartilhamento, interação, embates. Dependendo das características de cada pessoa e de cada empresa, as formas remotas de interação podem não dar conta de suprirem o olho no olho, a proximidade física que pode levar a conversas mais relaxadas, o bate-papo dos intervalos, da hora do café, o trabalho em times. Em uma videochamada, tudo tende a se tornar mais objetivo, mais direto ao ponto. Às vezes até criando uma dificuldade para os participantes se colocarem mais em uma reunião, por conta de questões como delay ou alterações de volumes de áudio que acontecem quando duas pessoas falam juntas. A tecnologia ainda não é 100% perfeita e de fato não consegue reproduzir a dinâmica de uma conversa presencial, mas deve evoluir rapidamente. É preciso lembrar que até alguns meses atrás, poucos tinham ouvido falar do Zoom ou de outras plataformas similares. Prova disso é que apenas nos últimos três meses, as ações da Zoom mais que dobraram de valor e o uso da plataforma cresceu 1900%. Seu criador, Eric Yuan, enriqueceu US$ 4 bilhões no período e chegou a uma fortuna atual de US$ 7,57 bilhões, entrando para a lista das 500 pessoas mais ricas do mundo. O que fica claro é que, apesar do ótimo desempenho de uma forma geral que o Home Office mostrou durante a pandemia, é preciso entender muito bem todo esse contexto. A sua implementação se deu em um período que pediu respostas rápidas para uma situação muito específica – o afastamento físico compulsório. A partir de agora, cada empresa vai ter que avaliar cuidadosamente os próximos passos e saber como vai administrar esse modelo de trabalho na fase pós-vacina. É possível prever que as vantagens vão superar as desvantagens e o Home Office vai ter uma participação cada vez maior, mesmo quando ele não for mais necessário em relação à pandemia. Os prós precisarão ser turbinados e os contras superados, para que opções mais radicais possam ser implementadas com flexibilidade, como uma adesão total ao modelo por parte de uma empresa. Como em poucos momentos da nossa história, estamos chegando rapidamente a uma sucessão de encruzilhadas e precisamos fazer escolhas mais personalizadas, evitando as decisões no calor do momento e compulsórias. A questão não pode ser vista como avançar ou dar passos atrás, e sim fazer escolhas cada vez mais conscientes. Acredito que seja o momento em que estamos entrando.   Artigo de Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy