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O ESPAÇO ENTRE DUAS CESTAS

Escrito por Marco Ornellas

 

20 de novembro de 2022, domingo – Nos dias de folga, Kátia não costuma pensar na empresa em que trabalha. Ela adora sua profissão, está feliz com o ambiente que tem em sua área, mas tem outros interesses, principalmente quando está com a família pela manhã. Mas hoje foi diferente. Ela recebeu uma cesta de café da manhã, enviada com os cumprimentos da diretoria. Uma cesta incrível, ótimos produtos, coisas deliciosas. Seus filhos ficaram empolgados, até seu marido aproveitou. Mas enquanto passava a geleia de blueberry no pão australiano, ela se lembrou de uma cena parecida, alguns meses antes.

08 de março de 2022, terça-feira – Ainda em home-office, Kátia acordou com uma cesta de café da manhã, enviada com os cumprimentos da diretoria. Seus filhos quase se atrasaram para a escola, querendo experimentar um pouco de tudo. Enquanto seu marido levava os meninos correndo para a escola, ela olhou para a mesa onde haviam acabado de comer e se sentiu feliz e motivada com a atenção que havia recebido da empresa.

Mas de volta ao presente, lembrando que 20 de novembro era o Dia da Consciência Negra, ela se sentiu muito diferente daquele 08 de março, Dia da Mulher. Não estava nem feliz, nem muito menos motivada. Aquela cesta vinha despertar alguns pensamentos que estavam por ali, mas que ela parecia ignorar. E ao se conscientizar disso, se sentiu ainda pior.

Ela era uma das poucas mulheres do departamento e a única negra. Esse fato pesou para ela algumas vezes, quando alguém mencionava o fato e falava de “cotas”, em uma brincadeira que escondia uma óbvia insinuação maldosa. A diversidade da empresa, em geral, poderia mesmo ser resumida a apenas ela. No começo, reparou que nas fotos que mostravam a equipe no site, ela raramente aparecia. Quando uma outra empresa, do mesmo segmento, sofreu uma acusação pública de pouca diversidade, “coincidentemente” ela se viu convocada a fazer algumas fotos, que foram publicadas também nas redes sociais, onde ela se destacava na homogeneidade dos perfis dos seus colegas de trabalho.

O que mudou para ela entre essas duas cestas que recebeu? A consciência do tokenismo, definição que Kátia encontrou na Wikipédia naquela manhã de domingo:

Tokenismo é a prática de fazer apenas um esforço superficial ou simbólico para ser inclusivo para membros de minorias, especialmente recrutando um pequeno número de pessoas de grupos sub-representados para dar a aparência de igualdade racial ou sexual dentro de uma força de trabalho. O esforço de incluir um funcionário simbólico em uma força de trabalho geralmente visa criar a impressão de inclusão social e diversidade a fim de desviar acusações de discriminação.

A nossa Kátia é fictícia, mas o tokenismo, não. Um dos significados de token, em inglês, é símbolo, de onde vem o neologismo. Essa Kátia criada nesse artigo é um símbolo da diversidade para a sua empresa, algo que parece bastar por si só, dentro de uma sociedade que pede mais diversidade. Dentro deste comprometimento – que deveria ser algo natural, por ser justo – o tokenismo surge como um efeito colateral desse movimento por mais inclusão. Ele esconde a forma como muitas empresas ainda lidam com o assunto. Mais ou menos assim:

RH da empresa de Kátia, 07 de março de 2022 – Rogério olha no calendário e vê que no dia seguinte será o Dia da Mulher. Dá uma leve bufada de impaciência, já que na sua visão isso é uma besteira, porque ele se acha uma pessoa sem preconceitos, para quem todos são iguais. Mas sabe que existe uma cobrança da sociedade e pagar seis cestas de café da manhã para as únicas mulheres da empresa é um preço até baixo para evitar problemas. Ele passa a tarefa para um assistente e vai se ocupar de assuntos que considera mais importantes, como encontrar alguém para a vaga que abriu em um dos departamentos, seu olhar já atraído automaticamente para currículos que apresentam um mesmo perfil.

RH da empresa de Kátia, 18 de novembro de 2022 – Rogério olha no calendário e vê que no domingo será o Dia da Consciência Negra. Dá uma leve bufada de impaciência, mas logo se anima. Dessa vez, a economia será maior ainda, já que só precisará encomendar uma única cesta. Pensando nisso, ele mesmo faz a encomenda.

Rogério também é fictício? Bom, essa é uma pergunta que você pode responder, olhando para a sua empresa. Em muitas, a realidade é encontrar formas de driblar exigências. Ou até mesmo a legislação, como no caso de Pessoas com Deficiência, onde empresas preferem pagar multas a seguir o que é determinado pelo artigo 93 da Lei nº 8.213/91.

Tokenismo é mais uma forma de “jeitinho”, aquela maneira de enganar até a si mesmo, utilizando símbolos como salvo-conduto sempre que surge o questionamento de pouca representatividade em uma empresa. Kátia percebeu que foi colocada nesse lugar, já que toda a ação da sua empresa nesse quesito se resume a algumas poucas cestas. Rogério, ao contrário, segue feliz com a sua forma de administrar o que, para ele, não passa de um problema. Ao se esconder no velho e desgastado discurso de que todos são iguais e que precisam ser escolhidos por suas competências, ele opta por ignorar um mundo em que as chances não são iguais para todos, um mundo onde ele é uma peça-chave dessa organização. Rogério dificilmente vai acordar para essa realidade, mas Kátia já percebeu que além de lutar por mais Diversidade & Inclusão, ela tem que enfrentam também o tokenismo.

E a sua empresa, também é tokenista?

Para você, o tokenismo é um problema?

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da Ornellas Community