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FOME DE SOLUÇÕES – continuação
Artigo de Marco Ornellas e Fabio Brandi Torres

Escrito por Marco Ornellas Fabio Brandi Torres

A cada 4 segundos, uma pessoa morre de fome no mundo. Esse número assustador vem se juntar a outros, já apresentados na primeira parte desse artigo, onde também foi discutida a relação entre bilionários e a fome. A pergunta, levantada a partir de um diretor da ONU, foi: se os homens mais ricos do mundo se unissem, contribuindo com uma pequena parte de seus patrimônios, poderiam ajudar a acabar com a fome no mundo?

A resposta envolve várias questões, algumas já abordadas no último artigo. O diretor da ONU, David Beasley, apontou que o principal uso do dinheiro seria para a logística, fazendo a comida chegar a quem precisa. E isso levanta outra questão: então, há comida para todos? Só precisamos fazer essa ponte?

A resposta é sim, comida existe. Ela já é produzida, é muito maior que a demanda e um terço dela não é consumida. Segundo a FAO, de tudo que é jogado fora, apenas 25% já seria suficiente para abastecer toda a população que passa fome. E ainda assim, uma pessoa morre de fome a cada quatro segundos. Nunca é demais repetir esses números.

O Brasil sozinho produz comida suficiente para alimentar até 1,6 bilhão de pessoas. É o segundo produtor de alimentos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Como é possível que, como vimos no último artigo, quase metade da nossa população passe fome ou esteja em situação de insegurança alimentar?

Aqui vale uma parada para explicar o que é a insegurança alimentar. Segundo a nutricionista Caroline Dalabona:

é um termo utilizado quando uma pessoa não tem acesso regular e permanente de alimentos em quantidade e qualidade suficiente para sua sobrevivência. Quem está em insegurança alimentar não tem quantidade e qualidade suficiente de alimentos pra sua vida. Isso significa uma violação de direito. A alimentação adequada e saudável, em quantidade e de forma permanente, é um direito de todo ser humano. A fome crônica é uma violação de direitos.”

Em 2014, o Brasil saiu pela primeira vez do mapa da fome da ONU. Hoje, dados de uma pesquisa elaborada pela Rede Penssan mostram que voltamos a patamares próximos aos de 2004.

A humanidade sempre conviveu com a fome, ao longo da sua História. Essa proximidade fez com que ela fosse vista como algo natural, recebendo até o rótulo de “vontade divina”. Em uma visão meritocrática – literalmente medieval – na Idade Média a fome era vista como algo positivo, já que, segundo James Vernon, “ela ensinava aos preguiçosos e indigentes a disciplina moral do trabalho”. A visão foi mudando ao longo dos tempos, mas não muito. Afinal, esse discurso ainda encontra eco nos dias de hoje.

O economista Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, surpreendentemente foi o primeiro a apontar a relação entre fome e pobreza e concentração de renda. Isso, em um livro de 1981, apenas 40 anos atrás, o que dá bem a dimensão de como nós realmente temos ignorado o tema.

Mas não é mais possível fazer isso. A fome, como disse a escritora Carolina Maria de Jesus, tristemente com conhecimento de causa, “é um soco no estômago”.

O que nós podemos fazer para mudar isso? Existem muitas iniciativas para combater a fome no Brasil, que vão desde doações para compras de alimentos até financiamento de cursos de formação em diversas áreas ou mesmo de perfuração de poços artesianos. Sim, a falta de água é uma das causas do aumento da fome. O Brasil tem enfrentado seguidas ondas de seca, que vêm impactando pequenos produtores rurais, que se vêm impossibilitados de produzirem até mesmo o suficiente para o próprio sustento.

Mudanças climáticas também fazem parte do problema. Segundo Aduino Mangoni,  outro diretor da ONU, Madagascar se tornou vítima da primeira fome ligada ao aquecimento global. Nas palavras dele, essa fome é a “primeira do tipo no mundo, mas não a última”. A ilha tem hoje mais de 1,3 milhão de pessoas sofrendo de desnutrição aguda.

Há muito o que fazer, mas doações individuais têm alcance limitado. A pressão em parlamentares, por políticas efetivas de combate à fome, nas esferas federais, estaduais ou municipais, também é apontada como determinante nesse combate. Mas no Brasil, ainda não temos o hábito de interagir com políticos em quem votamos, para cobrar medidas que achamos justas. Além de nosso direito, em casos como o da fome, é uma necessidade urgente.

Talvez, um primeiro passo seja não enxergarmos mais a fome como algo natural, que faz parte da paisagem. Não faz, não pode fazer. Se essa consciência mudasse em nós, como sociedade, talvez a forma como os bilionários escolhem para empregar suas fortunas não parecesse tão absurda.

Bilhões estão sendo investidos em pesquisas antienvelhecimento. A Alto Labs, uma empresa do Vale do Silício, conta com “dinheiro infinito” para contratar os melhores cientistas em busca de alcançar a imortalidade. Jeff Bezos está presente entre os financiadores, como outros multibilionários. Ele disse que espera viver para sempre, ao mesmo tempo em que milhões de crianças não vivem o suficiente para se tornarem adultas.

Elon Musk tem planos de colonizar Marte porque, segundo ele “se algo horrível acontecer na Terra, ou causado pela natureza ou pelos humanos, nós queremos ter alguma segurança para a vida como um todo”.

A questão é que algo horrível já acontece na Terra e se chama fome. No dia 06 de novembro, Musk lançou uma enquete no Twitter, perguntando se deveria vender 10% de suas ações na Tesla, já que, segundo ele, como não recebe salário ou bônus de nenhuma empresa, essa seria a única forma de pagar impostos. Essa enquete de Musk é uma resposta ao projeto de lei que tenta cobrar impostos de bilionários e suas empresas, algo que, como apontamos no artigo anterior, não é comum, devido a diversas manobras que fazem. Uma delas, não receber salários ou bônus.

Segundo uma matéria da InfoMoney sobre o tema, “o economista Gabriel Zucman, ironizou a enquete de Musk escrevendo, na mesma rede social, em tradução livre: “Ansioso pelo dia em que a pessoa mais rica do mundo não dependa de uma enquete do Twitter para pagar seus impostos”.”.

Talvez, apenas o valor combinado dos gastos espaciais de Musk, Bezos e Richard Branson já seriam suficientes para acabar com o problema da fome. Ou apenas seus impostos pudessem ajudar, se fossem efetivamente pagos. Mas por incrível que pareça, acesso a alimentos não é visto como uma questão prioritária. É essa visão que precisamos mudar em nós, para que a situação de milhões de pessoas possa mudar.

Você pode ler mais sobre algumas iniciativas acessando os seguintes links:

http://olheparaafome.com.br

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/03/23/fome-no-brasil-como-ajudar-pessoas-a-comer-e-sobreviver-na-pandemia.htm

 

Artigo escrito em parceira por Marco Ornellas – Consultor e CEO da Ornellas Community e Fabio Brandi Torres