Curadorias

FUTURING – a difícil arte de pensar o futuro
Artigo de Beatriz Garcia

A palavra futuring designa o exercício mental de pensar cenários futuros ou a condução de atividades de exploração do futuro, sendo que também podemos falar de future studies ou future research. Mas quando consideramos a incerteza, é necessário reconhecer que é impossível predizer o futuro com exatidão. 

Por que então exercitar o futuring? É um exercício válido? Necessário? Quais são as limitações e benefícios?

Existem múltiplas metodologias possíveis para tentar prever o futuro. De forma simplificada, podemos classificá-las em empíricas e objetivas, que são aquelas que projetam o futuro a partir de dados do passado, ou interpretativas e subjetivas, que constroem cenários a partir das visões e/ou propósitos das pessoas e, portanto a partir do seu imaginário. Mas o imaginário é moldado pelas nossas experiências de vida, frequentemente as atravessadas na infância e na adolescência. Essas experiências são momentos fundamentais para construir nossa visão particular do mundo, do que é certo e errado, do que é possível e impossível e de como as coisas deveriam ser. Pensar o futuro a partir do imaginário é, portanto também, um exercício de construção do futuro a partir da extrapolação do passado.

O passado contem lições muito valiosas. E em contextos relativamente estáveis, trabalhar com cenários futuros projetados a partir de dados e experiências do passado é de fato a melhor aproximação possível. Mas e quando acontece o impensável? Quando o passado não é mais um indicador aproximado do futuro? Ou quando nossas visões e expectativas do que é certo não evoluíram na mesma velocidade do que as mudanças do mundo? Será que nosso pensar ficou obsoleto e só imaginamos cenários inspirados em um desejo de voltar ao passado?  Em algum momento todo ser humano se conecta profundamente com a frase do poeta: “qualquer tempo passado foi melhor”.

Humberto Mariotti insiste em falar que atravessamos uma crise de percepção e parafraseando Ortega y Gasset, fala que o problema é que o que está acontecendo é que não entendemos o que está acontecendo. Edgar Morin define crise como um aumento das incertezas, provocado por um sistema antigo que está desparecendo e criando tensões com algo novo que está emergindo, e que ainda não sabemos o que é. E Nicholas Taleb usa a metáfora do cisne negro para representar o imprevisível das nossas vidas.

A minha pergunta é: é válido tentar predizer o futuro no meio da crise?

Na minha opinião tem momentos nos quais não é. Momentos nos quais é melhor focar nossa atenção e esforços em observar o presente, aprender coisas novas e lidar com os problemas atuais, sem tantas expectativas sobre o futuro. Todos temos expectativas sobre o futuro e sobre como determinadas coisas deveriam ser estáveis, fixas e permanentes nas nossas vidas. E quando uma crise, seja pessoal, econômica, política ou de saúde destrói essas expectativas, os níveis de ansiedade aumentam exponencialmente, surgindo a necessidade de “voltar à vida normal”.

Não é estranho que uma das expressões mais repetidas até a exaustão nos últimos meses tenha sido o “novo normal”. Mas precisamos reconhecer que é possível fazer muitas coisas boas sem ter certeza de qual é a direção na qual estamos caminhando. As promessas de uma nova normalidade em um momento de alta incerteza funcionam mais como pílulas contra o estresse do que como previsoras de um novo futuro.

Como podemos começar a nos preparar para pensar o futuro? O primeiro a fazer é desconstruir o futuro, desconstruir nossas visões e entendimentos obsoletos sobre como o futuro deveria ser. Talvez não projetar cenários e focar no presente. Tentar entender com calma o que pode ser que talvez esteja acontecendo e não estamos vendo. E adiar a discussão do futuro até o momento certo, depois de ter conseguido entrar em contato com novas realidades que estavam fora do nosso campo de percepção.

É importante analisar as tensões e paradoxos do momento presente. As mudanças se manifestam dentro do nosso campo de percepção na forma de tensões, de opostos irreconciliáveis. Se melhoramos nosso entendimento desses paradoxos sem buscar a solução que os resolve, é como olhar através de uma janela com pequenos pedaços do passado e do futuro interagindo e provocando uma mudança.

Mas é impossível entender tudo isto a menos que sejam abertos espaços de diálogo nos quais participem pessoas com pontos de vista diferentes. Bauman, no seu livro Modernidade Liquida, dedica um capítulo brilhante a analisar os espaços das cidades na atualidade. Uma das coisas que destaca como diferença entre a Modernidade Sólida e a Líquida, é a desaparecimento dos espaços de diálogo. Mas esses espaços são necessários para entrar em contato com a multiplicidade de ideias e o entendimento das tensões e paradoxos de que precisamos para mudar nossa visão de mundo. Sem eles, não saímos do lugar.

Assim nos prepararemos para entender suficientemente o que está acontecendo agora, e podemos começar a projetar novas visões de futuro. Este é o momento de pensar: Qual é o mundo que gostaríamos de ver? Quais podem ser os possíveis cenários considerando o que está acontecendo, as tensões e tendências, e o que queremos construir. E a partir dessa reflexão, podemos construir 4 ou 5 possíveis cenários, inclusive contraditórios. Ainda não é o momento da certeza nem do consenso.

Este é o momento do Backwards. É o momento de considerar esses cenários possíveis para o futuro e pensar: o que podemos fazer hoje que nos aproxima mais desses possíveis futuros? Quais serão nossas contribuições no presente? Nossos compromissos?

Em resumo, o exercício de futuring é válido no momento certo e serve para:

  1. Inspirar ações presentes;
  2. Construir um mínimo de entendimento comum que ajuda a fechar consenso sobre as prioridades atuais, não futuras;
  3. Garantir que iniciamos uma caminhada e influenciamos nosso futuro e não simplesmente reagimos ao que acontece;
  4. Não perder oportunidades de construir um mundo diferente.

 

Referencias mencionadas no texto

Beatriz Garcia – OD and Business Specialist
https://www.linkedin.com/in/beatriz-garcia-951b16/