Curadorias

CHRO ESTRATÉGICO?! AGORA É SUA VEZ!
Artigo de Daniel Motta

“Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer.” Confucio

Líderes de RH: Este é um grande momento! O clímax decisivo para o CHRO Estratégico!

Em todos os congressos mundiais de lideranças de recursos humanos dos últimos anos – ou, até das últimas décadas – a temática âncora tem sido “O RH Estratégico”, uma ode aos tempos vindouros nos quais o RH alcançaria por fim seu papel merecido de timoneiro da organização. Certamente, temática pertinente, diante da potencial e crescente perda de influência da área de RH no centro decisório organizacional, no qual os líderes de finanças e operações ocuparam cada vez mais espaço com suas argumentações consideradas mais “pragmáticas, concretas” na geração de valor.

Ciclos cada vez mais curtos do corpo executivo e foco cada vez mais exacerbado no retorno sobre capital em prazos mais exíguos tiveram como consequência comum o diferimento de agendas de longo prazo em prol de ações imediatas na geração de valor nos moldes requeridos pelo mercado de capitais globalizado. É óbvio que a área de RH tem entregas de alto impacto também no curto prazo, no calor das emoções dos tempos atuais. Mas seu impacto estruturante na construção de fundamentos de capital humano e de desenho organizacional são muito mais relevantes para a perenidade e relevância das organizações.

Entretanto, o sequestro das agendas estruturantes por ações de curto prazo ainda foi acompanhado pelo aumento crescente da complexidade processual na gestão de recursos humanos em ambientes cada vez mais incertos, inóspitos e instáveis. Toda agenda burocrática de recursos humanos tem sido cada vez mais desafiada pelos novos arranjos organizacionais e pelas relações mais complexas com stakeholders neste contexto de transparência total provocada pelas redes sociais, de leis trabalhistas anacrônicas e de ostracismo sindical.

Vale ainda destacar o surgimento da pauta contemporânea “RH Digital” com sua miríade de possibilidades de automação de processos tradicionais de recursos humanos e de modelagens atualizadas para capacitação das organizações a lidarem com esta nova força de trabalho, e suas diferentes necessidades, expectativas e aspirações. Ainda neste contexto digital – fora do lugar comum das inúmeras ferramentas lúdicas, ofuscantes e, muitas vezes, inúteis – os dois grandes fenômenos a serem administrados são a temível guerra de talentos e a urgente necessidade de reskilling e upskilling da força de trabalho empregada nas empresas.

E eis que surge o cisne negro Covid-19! Uma hecatombe social!

Seu impacto no mundo organizacional foi imediato: tanto pelas linhas de defesa como pelas forças de ataque. De um lado, a necessidade de proteção dos colaboradores e de redução das despesas e investimentos; do outro lado, a urgência em ajustar modelos operacionais em tempos de isolamento social. A ruptura com o status quo não trouxe aviso prévio! Um súbito pesadelo que insiste em não nos deixar por várias semanas, talvez meses, a fio.

É claro que a pandemia vai passar! Na vida, tudo passa! Mas o impacto parece ter deixado marcos relevantes para a sociedade e também para as organizações.

E, neste contexto de adversidade, o momento é especialmente favorável para a realização das ambições do profissional de recursos humanos: tornar-se o CHRO Estratégico.

Neste exato momento, acionistas, investidores, conselheiros e executivos estão imersos em múltiplas análises de contexto, decodificando sinais difusos, atuando em múltiplas dimensões para mitigar os impactos em suas organizações, envolvendo-se com agendas de responsabilidade social. E uma das principais temáticas é, inexoravelmente, PESSOAS.

Portanto, líderes de finanças e operações abram alas para seus líderes de capital humano, pois a temática mais crítica nesta pandemia é justamente a continuidade dos negócios possibilitada pelas pessoas. Estas mesmas que, além dos desafios de produtividade, adaptabilidade, felicidade, capacidade e sanidade no mundo do trabalho, agora vivem com mais ansiedade e agonia os males dos tempos contemporâneos, intensificados pelo isolamento social mas já amplamente avançados pelo próprio flagelo institucional da família, igreja, governo e comunidades. Não há refúgio seguro, além de si mesmo.

E dentre os vários papéis possíveis para o CHRO Estratégico, destaco o tripé de ouro:

1 Ser o centro da gestão do desempenho organizacional, viabilizando a continuidade da estratégia de negócio de um lado, e assegurando força de trabalho capacitada, adaptável e comprometida com o propósito, a visão e as diretrizes estratégicas

2 Ser o agente coordenador da gestão de mudança, equilibrando a natural busca por estabilidade e previsibilidade do contexto interno com o ambiente externo dinâmico em torno de volatilidade e incerteza. Tal dualidade é o cerne de atuação das organizações, cada vez mais plásticas, fluidas e orgânicas. Cultura e liderança são as chaves de sucesso (ou fracasso).

3 Ser o articulador político das relações de poder em prol da necessidade de redesenhos organizacionais, construção de novos ecossistemas produtivos e geração de valor compartilhado multistakeholder. Navegar em mares revoltos é para poucos.

CHROs Estratégicos…. “vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”

 

Daniel Augusto Motta é Sócio e CEO da BMI Blue Management Institute. Doutor em Economia pela USP, Mestre em Economia pela FGV-EAESP e Bacharel em Economia pela USP. É Alumni OPM Harvard Business School. Atua como Sócio e Diretor Geral da WhiteFox Capital, controladora da Nexialistas e PeopleCraft. Também atua como Diretor de Planejamento Estratégico da UNIBES. É Membro-Fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi Professor nos MBAs da Fundação Dom Cabral, Insper, FGV, ESPM e PUC-SP. Atuou como Professor Convidado nos MBAs da Thunderbird School of Global Management e Stockholm School of Economics. É autor de diversos artigos publicados por Valor Econômico, EXAME, VocêSA e Folha de São Paulo, e também tem três artigos publicados pela Harvard Business Review Brasil. É autor dos livros A Liderança Essencial e Anthesis.

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