Curadorias

PANDEMIA: NÃO É COMPLICADO, É COMPLEXO –
Artigo de Sergio Bruno C. Fernandes

Como um mosquito pode fazer um gato saltar de paraquedas? Nos anos 50 a ilha de Bornéu sofria com um enorme surto de malária e a Organização Mundial de Saúde decidiu pulverizar inseticida na ilha. Os mosquitos morreram e a malária diminuiu. Um problema que parecia complicado havia sido resolvido. Todavia, passado algum tempo, um fenômeno novo começou a acontecer. Os telhados das casas, a maioria feitos de palha, começaram a desabar. O inseticida que havia eliminado o mosquito da malária, também havia matado uma espécie de vespa que se alimentava de lagartas. Essas lagartas, cuja população explodiu devido à diminuição de seu predador natural, tinha como refeição predileta a palha usada no telhado das casas. Insetos envenenados também serviam de alimentos para répteis, os quais, por sua vez, eram consumidos pelos gatos. Muitos felinos foram mortos e o número de ratos na ilha aumentou dramaticamente causando um surto de Tifo e outras doenças. Uma das soluções encontradas foi a Operação Cat Drop, na qual a Força Aérea do Reino Unido despejou cerca de 14.000 gatos de paraquedas na ilha para restabelecer o equilíbrio.

Essa história normalmente é lembrada para ilustrar a lei das consequências indesejadas. Ela, no entanto, é mais rica que isso. A verdadeira mensagem aqui é seguinte: sistemas complexos não devem ser subestimados.

Uma pandemia é um problema complexo e complexo não significa complicado. Enquanto complicado (com+plicarei) remete a algo misturado, dobrado ou emaranhado, complexo (com+plectere)refere-se a partes que estão entrelaçadas, conectadas e, principalmente, são interdependentes. A distinção vai além da semântica, ela muda a forma como lidamos com os problemas.

Complexidade – Os elementos de um sistema complexo são interconectados de modo que o comportamento de cada um deles afeta e é afetado pelos demais. A Economia é um sistema complexo: juros, inflação, crédito, emprego, crescimento são interdependentes. A interferência num desses elementos tem efeito nos demais e no todo. E o sistema econômico, por sua vez, afeta e é afetado por outros sistemas. Nenhum sistema existe per se; está sempre relacionado a outros. A Natureza, governos, famílias, seu cérebro, a corrupção política, seu sistema digestivo, o trânsito e um formigueiro são sistemas complexos. Ao lidar com problemas complexos, não se deve apenas avaliar o elemento “A” ou “B”, tampouco apenas “A” e“B”, mas principalmente a relação entre “A”–e–“B”. É o comportamento do sistema, por meio de suas conexões, que nos fornece informações úteis para compreender e resolver os problemas complexos. Essas informações colocam o problema em contexto e amplia nossa perspectiva. A presente pandemia demonstra que todas as coisas existem em relação a alguma outra coisa. Nada é independente. Desconsiderar o contexto, colocando foco apenas em um ou em alguns dos elementos do sistema, tende a causar um estrago maior do que o problema que se visa corrigir. Numa pandemia, tão importante quanto tratar os doentes e buscar a cura, é compreender como o vírus é transmitido e qual será o impacto nos sistemas de saúde, na economia, na política e no estado psicológico das pessoas. Deve-se olhar para o todo e não apenas para as partes.

Causalidade – Em sistemas complexos a relação entre causa e efeito não é linear. Por isso, é muito difícil fazer previsões. Quando há linearidade é possível fazer previsões seguras. Se X=Y, logo 2X será igual a 2Y; 3X será igual a 3Y e assim sucessivamente. As relações não-lineares, todavia, não seguem essa lógica. Se você tomar o dobro da dose recomendada pelo médico não ficará curado duas vezes mais rápido. Além disso, um efeito pode ter múltiplas causas e, ao mesmo tempo, ser causa de outros problemas. O mundo é dinâmico e complexo. Ficar apenas procurando “a causa” ou “os culpados” é como olhar pra uma foto enquanto o filme se desenrola. Problemas complexos não são criados deliberadamente por alguém. Normalmente são consequências indesejáveis de um sistema complexo. Teorias da conspiração funcionam muito bem na ficção. Na vida real são utilizadas por quem não quer ou não sabe como resolver o problema.

Círculo de Feedback – Um sistema produz informações por meio de círculos de feedback. Este é representado por um círculo com elementos conectados uns aos outros. Cada conexão é uma causa, de modo que um elemento exerce efeito sobre o outro até que o último retroalimenta o primeiro. Em sistemas lineares, pequenas mudanças causam pequenos efeitos. Em sistemas não-lineares, pequenos inputs podem ser rapidamente amplificados por ciclos de feedback e gerar súbitas mudanças e enorme instabilidade no sistema. O crescimento exponencial de contaminados numa pandemia é um exemplo. A cada ciclo o sistema se retroalimenta e as condições iniciais do ciclo gerarão outputs em enorme escala.

Dependência do trajeto (já percorrido) – O ser-humano tende a resolver problemas com base em experiências já vividas e é refratário a soluções inéditas. Contudo, soluções do passado normalmente não funcionam para problemas complexos porque na complexidade cada situação tende a ser única. O contexto atual, por exemplo, é ímpar. O mundo nunca esteve tão conectado. Nunca foi tão fácil e rápido locomover pessoas e produtos para qualquer local do mundo. Soluções de pandemias passadas não são receitas prontas e podem nublar a tomada de decisão no presente. Analogias são ótimas para explicar algo, mas não são eficientes para fazer previsões.

Incerteza – Numa situação de risco é possível fazer estimativas e calcular probabilidades. Num cenário de incerteza não há como calcular as consequências de nossas ações. Por isso, não existe um trade off entre, por exemplo, salvar a economia ou um percentual de “velhinhos”. Essa dicotomia é falsa, de modo que nem é preciso entrar em seu aspecto ético. Sistemas complexos não devem ser geridos visando apenas produtividade ou estabilidade, mas especialmente resiliência. Resiliência é a capacidade de recuperação de um sistema após sofrer um dano ou ataque. A incerteza de não poder prever o futuro e dimensionar a extensão dos possíveis danos pode ser atenuada aumentando-se a resiliência do sistema. Diante de um evento inevitável, como uma pandemia já instalada, uma boa política é fortalecer o sistema para que, passada a tormenta, o sistema possa se reestabelecer de maneira eficiente e rápida. A resiliência de uma sociedade é fortalecida por meio de cooperação, empatia, informação, aprendizado e, sobretudo, confiança nas instituições e lideranças.

Princípio da Precaução – Em momentos de incerteza, o princípio da precaução é o grande aliado. É melhor exagerar na precaução e errar, do que errar na falta de cuidado, pois este pode ser fatal. Se você estiver nadando contra a correnteza e, já terrivelmente cansado, visualizar um objeto boiando em sua direção e ficar na dúvida se aquilo é um tronco ou um jacaré, não arrisque, pois os desfechos num ou noutro caso são desproporcionais. Continue a nadar. É mais provável que as incertezas piorem a situação do que resolvam o problema. Pacientes assintomáticos (mas que são vetores de transmissão) e falta de testes geram incerteza quanto a número real de infectados. Eliminar essa incerteza não diminuirá os casos, certamente o número será maior.

Assimetria – Quando há assimetria entre as opções disponíveis sua maior preocupação deve ser sobreviver e não obter a melhor performance. Diante de um sistema complexo, onde impera a interdependência, os riscos não devem ser avaliados em termos individuais. O dano em um dos elementos do sistema (indivíduo) pode causar a ruína de todo o sistema e, em algum momento futuro, afetará os demais elementos. A probabilidade de um indivíduo jovem e saudável morrer numa pandemia pode ser remota, vista isoladamente. Porém, esse baixo risco individual não afasta um alto risco sistêmico. Por exemplo, se durante uma pandemia esse mesmo indivíduo precisar do sistema de saúde por outra razão, um acidente de carro por exemplo (Alto risco individual e Baixo risco sistêmico), encontrará o sistema em colapso e não será atendido. Problemas outrora simples, como uma apendicite, poderão ser fatais. Esse mesmo indivíduo com baixo risco de sofrer com a pandemia é interdependente (socialmente, financeiramente, emocionalmente etc.) de outros indivíduos cujos riscos são diferentes do dele individualmente (familiares, amigos e colegas). Ou seja, inevitavelmente esse indivíduo será afetado pelos danos ao sistema, mesmo que a probabilidade de ele sofrer com a doença seja remota.

Propriedade Emergente – O todo é diferente da soma de suas partes. A análise das partes de um sistema complexo não permite prever o comportamento do sistema. Sistemas complexos possuem comportamento próprio não encontrados em seus elementos, quando vistos individualmente. A propriedade emergente do cérebro é o pensamento, porém este não é resultante da soma de “pedaços” de pensamento encontrado em cada neurônio. Da mesma forma, uma sinfonia não é a mera soma de notas musicais. Uma colmeia é mais do que a soma de suas abelhas. Em razão da interdependência, um sistema complexo pode ser propriedade emergente de outro sistema. Uma pandemia pode ser uma propriedade emergente de um sistema econômico que incentiva o consumo de animais silvestres, aliado a um sistema político corrupto que se omite no dever de regular esse tipo de comércio, aliado a um sistema de fiscalização sanitária falho, aliado a um sistema legal que censura a informação, aliado a um sistema urbano com alta concentração populacional, aliado a um sistema de transporte extremamente eficiente que permite rápida mobilidade de milhões de pessoas ao redor do mundo. E as propriedades emergentes oriundas da pandemia do Covid19?Situações de grave ameaças e incerteza, nunca antes experimentadas, podem resultar em comportamentos irracionais e colocar em risco a coesão social. Atos de xenofobia e abuso do poder econômico podem gerar um ciclo de feedback nocivo onde a cooperação social dá lugar ao revide recíproco (tit for tat) com proporções imprevisíveis. Por outro lado, novas formas de se fazer negócios, reformas nos sistemas de saúde, benefícios ao meio ambiente e uma valorização das relações pessoais podem ser propriedades emergentes positivas. Constatar que decisões políticas estão diretamente ligadas não apenas ao bem estar, mas literalmente à sobrevivência das pessoas, também pode ser um aprendizado emergente dessa crise.

Escala – Sistemas complexos não se comportam da mesma forma em diferentes escalas. Se uma quarentena vertical funcionar num pequeno município não significa que irá funcionar numa grande metrópole. Pela mesma razão, ao se tentar uma solução inédita diante um problema complexo, deve-se fazer numa escala pequena de modo que, caso a solução falhe, o sistema sobreviva. Remédios novos devem ser testados em pequenas escalas de modo que eventuais erros sejam controlados. Conforme haja feedback e eventuais erros possam ser corrigidos, a solução pode ser ampliada gradativamente sem comprometer o sistema.

Liderança – A mente humana está sempre à procura de certezas, de previsibilidade. Gosta mais de retas (linearidade) do que de curvas. Prefere números inteiros a frações, uniformidade em vez de diversidade. Contudo, o mundo natural não se comporta dessa forma e tende a ser cada vez mais complexo, volátil e incerto. A lógica binária verdadeiro/falso funciona para sistemas simples, como um interruptor de luz (on/off), não serve para sistemas complexos. Construir um mundo paralelo, cercando-se de pessoas que pensam de forma igual, não deixará o mundo real mais simples e previsível. Reconhecer a incerteza não traduz insegurança. Inflexibilidade não é sinônimo de firmeza. Especialistas, sozinhos, normalmente não possuem solução para problemas complexos porque tendem a olhar para as partes e não para o todo. A diversidade de perspectiva aumenta as chances de se produzir melhores resultados. Navegar através dessa neblina cerrada exige constante ajuste na rota. Capacidade de adaptação é essencial. Líderes precisam de humildade para corrigir erros e de abertura ao constante aprendizado, ainda que este se traduza em algo, a princípio, contraintuitivo como transformar pacatos felinos em intrépidos paraquedistas.

 

Sergio Bruno C. Fernandes é Promotor de Justiça no Distrito Federal e Mestre em Direito pela Cornell University (Ithaca, NY).