Curadorias

O DESAFIO DE LIDERAR EQUIPES EM TEMPOS DE MUDANÇAS EXPONENCIAIS
Artigo de Maria Augusta Orofino

A pandemia causada pelo coronavírus foi um acelerador de futuros para muitas empresas. É claro que, há tempos, as organizações vêm investindo em tecnologias para se manterem competitivas e reduzirem os silos da disrupção digital: softwares de automação, CRM, pipedrive, gestão de projetos e tantos outros. No entanto, também é sabido que a inovação vai muito além de ferramentas, passando por um processo de capacitação de líderes e criação de uma cultura organizacional voltada para inovação.

Neste período, vimos que muitos manuais e quadros de missão, visão e valores não estavam adequados com o que foi exigido dos times ao operarem de forma totalmente remota. O que aconteceu em muitas organizações foi a projeção do mundo físico para o mundo digital. Ou seja, lideranças que ainda vivem com resquícios da era industrial, que sentem a necessidade de cobrar horários, controlar o ponto e pressionar por entregas, continuaram a agir da mesma forma, exigindo porém que esse ponto fosse batido on-line, seja em softwares específicos ou em ferramentas de comunicação.

Aqui temos duas questões para pontuar. A primeira delas é que estamos vivendo uma emergência sanitária, sem precedentes nos últimos 100 anos. Pensar nisso já gera ansiedade, mas o cuidado que precisamos tomar para seguirmos saudáveis e produtivos exige uma maturidade emocional muito grande.

O segundo ponto é que essa postura de chefe que corrobora com o ditado “manda quem quer obedece quem tem juízo” é que costuma causar problemas de saúde nos seus subordinados, como a síndrome de burnout, transtorno de ansiedade e depressão. Um número que gostaria de ressaltar é que, antes da pandemia, dados do Ministérios da Saúde já apontavam que um contingente de 25% dos trabalhadores brasileiros estavam de licença médica.

No futuro do trabalho que, aliás, já chegou não haverá espaço para liderança tóxica que tem descaso com o ser humano e o ambiente em sua volta

Além disso, o capital por si só não se sustenta se não olharmos para os colaboradores que estão nas organizações. Afinal, são as pessoas que fazem a máquina funcionar. Trabalham todos os dias para que o sucesso chegue ao cliente e os sonhos de todos os envolvidos nesta engrenagem aconteçam: seja do cliente, do CEO ou do próprio trabalhador.

Começamos a escutar que agora uma característica necessária para o futuro pós-pandemia será uma liderança humanizada. Então, antes não era? O termo se torna ambíguo porque as relações de trabalho sempre foram relações de pessoas para pessoas.

A presidente da SAP no Brasil, Cristina Palmaka, apresenta um conceito de que as novas relações de trabalho trazem um conceito de humanidade ampliada. Ou seja, que além das habilidades técnicas, os colabores também desenvolvam competências como empatia, criatividade e coragem. Skills fundamentais para o trabalho remoto.

O home office trouxe a vida pessoal para o trabalho

Ou o trabalho para a vida pessoal. É difícil colocar uma sequência correta na frase pois este movimento já estava acontecendo. Não existem duas vidas: uma pessoal e outra profissional. Somos nós, todos os dias, entrando e saindo de vários espaços. Pegar uma hora de engarrafamento para chegar no trabalho faz com que o colaborador chegue estressado. Algumas vezes, essa emoção demora para voltar ao normal.

Da mesma forma, o colaborador pode ter um dia corrido no trabalho e demorar muito para amenizar o estresse quando chega em casa. Mas, com o trabalho remoto, é tudo acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo lugar. São crianças correndo pela casa na hora da reunião de sprint. São cachorros que latem ao ouvir o som da chamada durante uma call. A obra do vizinho, a música alta no apartamento ao lado e por aí vai.

Como sentar e trabalhar oito horas seguidas batendo o ponto para o almoço se essa transformação aconteceu às pressas e ainda está em fase de adaptação? Mas, ainda assim temos vários exemplos positivos:

  • Há líderes que fortaleceram o movimento #nãodemita;
  • Ampliou-se a atenção aos colegas, conversando sobre aspectos domiciliares, antes proibidos e fora de qualquer agenda;
  • Outros enviaram mobiliário e equipamentos para que os colaboradores pudessem montar uma pequena sucursal do escritório na sala de casa;
  • Empresas que seguem contratando estão fazendo o onboarding on-line e até enviando computadores para a casa dos novos funcionários;
  • Existem líderes que enviam cerveja para a casa dos colaboradores todas as sextas-feiras para que possam manter a rotina do Happy Hour;
  • Estabeleceu-se, em alguns escritórios, a hora da saudade, momento este utilizado para tomar um cafezinho e conversar sobre amenidades.

Os bons exemplos servem também para mostrar que esse líder tóxico e controlador não vai sobreviver. Vocês sabem o motivo? Há cerca de cinco anos, os sociólogos vêm estudando esse movimento de futuro ao qual chamaram de pós-normal. Nele, os cenários são caóticos, complexos, disruptivos e as mudanças ocorrem de forma abrupta. Da mesma maneira que aconteceu com a pandemia do coronavírus e a necessidade de trabalho remoto para manter o isolamento social

A reflexão que gostaria de deixar ao apresentar o conceito de pós-normal é: como manter o comando e controle se não conseguimos prever o que vai acontecer em uma semana?

O desafio do líder em tempos de mudanças exponenciais, portanto, é promover a autonomia, a confiança, a criatividade, a coragem e a colaboração entre os membros da equipe. Parece difícil? Claro que não! Construa uma cultura organizacional flexível, voltada para inovação e que deixe claro que o processo é pela confiança, que a entrega é por objetivo e que a comunicação e os feedbacks sejam claros o bastante para que o colaborador saiba o que é esperado dele e para onde evoluir.

Se essas dicas forem seguidas, você construirá um ambiente onde as pessoas sentem prazer em estar e tenham orgulho de pertencer. E quando digo ambientes não me refiro a escritórios gigantes com churrasqueira, ampla área de lazer e decoração impecável. Afinal, muitas empresas investiram nesse tipo de estrutura e hoje estão fechadas. O que importa verdadeiramente é construir uma cultura organizacional focada nos colaboradores e que exista em todos os mundos: o físico, o remoto ou o híbrido.

Você está pronto para essa mudança? Divida conosco nos comentários quais os principais desafios em liderar uma equipe remota que não sabe quando voltará para o ambiente físico. Spoiler: já conheci dezenas de pessoas que não querem voltar.

 

Maria Augusta Orofino é Palestrante, Consultora, Especialista em Metodologias Ágeis, Design Thinking, Organizações Exponenciais e Mindset Ágil

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