Curadorias

Como anda a sua esperança?
Artigo de Graziela Merlina

Preciso começar esse papo tietando. Sou fã da Editora Bambual. Suas publicações são incríveis e totalmente coerentes com seu propósito de “Livros para a Transição Global”. A obra que vou abordar aqui, ESPERANÇA ATIVA, eu li logo que assumi a Diretoria de Educação do ICCB e foi fundamental para criar empatia com tantos embaixadores e embaixadoras certificados em Capitalismo Consciente, que ao assumirem esse papel enfrentam algumas resistências suas e de outros.

Por isso, começo destacando essa frase dos autores Joanna Macy & Chris Johnstone:

“Muitas vezes experimentamos uma tensão interior entre o impulso de fazer algo e a resistência a ele.”.

Assim, ESPERANÇA ATIVA não é sobre as nossas intenções, mas sim sobre as ações que tomamos a partir do que cria resistência a elas. O que difere da esperança passiva, na qual esperamos que agentes externos façam o que desejamos.

Sim! Estamos de novo falando em protagonizar a mudança que queremos ver no mundo. E isso inclui enfrentar as próprias preocupações, dar voz e ouvido a elas. Caso contrário não passaremos de seres bem informados sobre as dores do mundo.

Os autores nos trazem então, sete variações de resistência que podem nos impedir de atuar com esperança ativa:

  • Não acredito que seja tão perigoso assim. (quando a maioria das pessoas age como se não fosse grande coisa, é mais fácil acreditar que o problema não é tão sério).
  • Não é meu papel resolver isso. (qualquer coisa que está no fim da rua e não no meu quintal, é problema de outra pessoa).
  • Não quero me destacar na multidão. (não vale a pena arriscar chamar atenção para si mesmo).
  • Esta informação ameaça os meus interesses comerciais ou políticos. (melhor atacar a fonte da informação e invalida-la).
  • É tão perturbador que prefiro não pensar nisso. (é doloroso demais olhar para as emergências do mundo e não aprendemos como lidar com essas emoções).
  • Sinto-me paralisado. Estou ciente do perigo, mas não sei o que fazer. (sintomas de angústia e/ou ansiedade).
  • Não faz sentido fazer alguma coisa, já que não fará nenhuma diferença. (vamos aproveitar o que temos – otimismo conveniente)

Qualquer uma dessas resistências pode gerar crises: de confiança, de relação, de ação, entre outras. Ao mesmo tempo, são essas crises que se tornam pontos de virada quando nos induzem a nos conectarmos e comunicarmos com os outros. Isso é enfrentamento.

Claro que o livro proporciona muito mais conteúdo do que esse. O destaque aqui é para a coragem necessária em acessar e reconhecer as resistências que são intrínsecas ao ser humano, mesmo quando os benefícios da ação ou as ameaças da não ação são tão evidentes.

Por isso pergunto aqui se você se viu em alguma dessas resistências citadas. Qual ou quais delas você tem mais tendência em usar? Qual ou quais delas você mais encontra na relação com outros? O que acontece entre a sua intenção e sua ação? Que recursos internos você já usa ou pode usar ainda mais para superar essas resistências e tem a oportunidade de traze-los para consciência? Alguma urgência do mundo você já entendeu, mas ainda não sentiu o suficiente para dar valor e importância?

A partir desse conto dinamarquês que também consta na obra, te convido então a refletir como anda a sua esperança – ativa ou passiva? E que tipo de poder você exerce sobre ela? Qual rei é você?

Você vê a torre?”, disse o primeiro rei para o segundo, apontando para uma parte alta e grandemente fortificado do castelo. “Em meu reino, posso ordenar a qualquer um dos meus subordinados que escale até o topo e, então, pule para a morte. Tal é o meu poder que todos eles me obedecem”.

O segundo rei, que o estava visitando, olhou ao redor e apontou para uma pequena e modesta casa próxima.

– “Em meu reino”, ele disse, “eu posso bater à porta de uma casa como aquela, e em qualquer cidade ou vila eu serei bem-vindo. Tal é meu poder que posso pernoitar, dormir bem sem temer pela minha segurança.”

O primeiro rei tinha poder-sobre, e o segundo rei tinha poder-com.

O poder-com reconhece e aproxima-se das resistências. Elas também fazem parte do reino.

 

Graziela Merlina é Conselheira Capitalismo Consciente Brasil, Idealizadora do HUB Consultores Conscientes @CasaMerlina, Fundadora do @InstitutoEmana, Mentora e Investidora Social