O que as empresas disruptivas podem nos ensinar

Imagine-se chegando ao trabalho de bermuda, entra no elevador junto com você outro colega, com seu cachorro na coleira. No andar da cafeteria, pega um suco natural de fruta e ovos mexidos e come num ambiente descolado com música suave ou tem a opção de ir para o jardim com uma linda vista de Manhattan. Antes de ir para a sua mesa, você passa no balcão do café e o barista entrega seu cappuccino como de costume.  Você vai para sua mesa, passa por ambientes coloridos e lúdicos com obras de artistas contemporâneos, espaços temáticos, nichos de privacidade e até uma estação da LEGO.  Todos aparentam muito engajamento e estarem à vontade, o espírito familiar tem total pertinência, alguns se vestem de roupa mais social, outros, simplesmente de chinelos, não importa, cada um é respeitado pelo que entrega e contribui.

Essa cena parece um filme? Não, isso é a realidade das empresas do Vale do Silício.

Essas empresas aprenderam que, para serem líderes de mercado e inovadoras, precisavam criar modelos de trabalho diferentes, disruptivos. São conhecidas por estarem à frente das mais incríveis inovações tecnológicas do nosso tempo: inteligência artificial, carros sem motorista, lentes de contato inteligentes e por aí vai.

Para manterem esse padrão de inovação, essas empresas se organizaram internamente de maneira a derrubar barreiras tradicionais na forma como as pessoas interagem, se comunicam ou se comportam: a cooperação, a organização do trabalho e como as pessoas se inserem como indivíduos e co-criadores é bem diferente de como as empresas tradicionais funcionam.

Essas empresas criaram um ambiente fértil, onde ideias nascem e se transformam através da colaboração de outras pessoas. Nesses lugares, tudo é pensado para estimular a criatividade, a inovação, a colaboração e o diferente. Não há regras tradicionais, como código de vestimenta, e as pessoas são encorajadas a serem elas mesmas e a atingirem a plenitude como indivíduos. O respeito e a diversidade são temas centrais da cultura e um senso de coletividade é forte e defendido por todos que fazem parte do grupo.

Seja muito bem-vindo ao futuro.

Essa foi nossa segunda visita que eu, Josué Cruz e Jose Netho fizemos em Nova York. Queríamos olhar como isso funcionava na prática, e fomos conversar com Samantha Vidal, uma executiva brasileira, líder de uma área comercial, que vive e trabalha atualmente em Nova York em uma das maiores empresas de tecnologia do Vale do Silício.

A conversa foi deliciosa e dentro do clima. Sentamos no jardim externo em um dos andares de um prédio antigo, totalmente reformado internamente, no bairro Chelsea, uma das áreas hoje mais tecnológicas de Manhattan. Nesse papo, falamos de competências, de trajetórias de carreiras, de desenvolvimento de pessoas, de processos de seleção e avaliação, de mentoring, de produtos e entregas de RH, de diferenças culturais, de diversidade e da posição mulher nas corporações.

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Ter clareza do que você deseja e quer para sua vida

Uma das coisas mais interessantes da conversa foi perceber a assertividade e objetividade com que Samantha tem com a vida. Ela relata que desde pequena queria ir para fora do Brasil. Olhando em retrospectiva, a sensação que se tem é que Samantha é decidida e focada a ponto de em pouco tempo, ainda jovem, já ser uma líder destacada em uma organização mundial. Suas competências são motivo de reconhecimento e ascensão profissional.

Sobre diferenças e diversidade

Samantha se surpreendeu com seu processo de adaptação: na sua avaliação tudo ocorreu bem e com certa facilidade, embora diariamente aprenda sutilezas da cultura americana, acredita que o fato da empresa ter uma prática aberta, que aceita e estimula a diversidade, tenha contribuído muito para o seu processo de integração.

Independentemente de nacionalidade, religião, gênero, e outras muitas diferenças, as pessoas e suas contribuições são valorizadas, são estimuladas em expor suas ideias e participar integralmente das discussões.

“Aqui as pessoas têm que trazer seu eu completo para o trabalho em toda a sua complexidade:  seu gênero, sua religião, sua orientação sexual, sua etnia, suas origens, seu estilo.  Não tem código de vestimenta, e sim um forte código de ética e respeito.  Aqui não é tolerado nada que prejudique outra pessoa em qualquer aspecto.  A diversidade é um dos grandes valores dessas empresas que tem gente literalmente do mundo inteiro.  No meu time somos internacionais: brasileiros, portugueses, indianos, argentinos, americanos descendentes de chineses, irlandeses, judeus, cristãos, hindus, budistas.  Temos grupos que se encontram com frequência nessas empresas:  grupos de pessoas de determinadas religiões, determinada etnia, mulheres, gays, etc.  Esses grupos discutem inclusão e fazem eventos educativos”.

Outro aspecto em relação às diferenças culturais é o fato dos americanos serem extremamente estruturados e organizados.  Pontuais, seguem processos, gostam de formalizar e estruturar.  Para cada reunião, é necessário ter uma agenda com antecedência e compartilhar essa agenda com os participantes. Os tópicos tem tempo pré-definidos para serem discutidos. As reuniões começam e terminam na hora, e, se algum tópico ficar de fora, é marcado outra reunião ou a discussão continua por e-mail. Com isso, as pessoas são extremamente produtivas e o dia rende muito.  Não é comum as pessoas saírem de suas mesas para comerem e socializarem no cafezinho.

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Na avalição de Samantha, muitos brasileiros confundem isso com frieza, mas isso não é verdade. Os americanos são muito gentis, porém assertivos e objetivos.  Eles não fazem rodeios e a assertividade é necessária para sobreviver e ter sucesso aqui.  Por outro lado, os brasileiros têm como grande vantagem à flexibilidade.

Por termos nascido num lugar mais instável em vários sentidos, aprendemos do berço a sermos flexíveis. Sinto que isso é uma grande vantagem que temos, pois, se as coisas não saem como o planejado, a gente logo consegue visualizar um caminho alternativo. Um americano demora um pouco mais de tempo para se reestruturar porque é mais estruturado”.

Sobre mentoring e apoio

Mais do que um programa estruturado e formal o processo de mentoring é da total responsabilidade das pessoas, dos colaboradores. Se você quer ajuda, precisa compartilhar e tirar uma dúvida, precisa de apoio para algum momento que esteja passado, simples assim, você procura alguém e pede apoio, pede mentoria. E as pessoas aceitam, se disponibilizam para isso.

Ao longo de sua carreira em muitas ocasiões recorreu a mentores, pessoas de dentro ou de fora da organização que demonstravam fortes competências nas áreas em que gostaria de se desenvolver. Ela não tem dúvida de quanto esse processo e iniciativas acelerou, consideravelmente, seu processo de aprendizagem e crescimento na carreira.

Nos parece que essa iniciativa está totalmente ligada a atitude de accountability, assertividade e uma forte crença do poder pessoal, diferente, de culturas em que se atribui a responsabilidade ou o aprendizado fora de si, adotando uma postura passiva, de baixa responsabilidade e um papel de criatura ao invés de criador.

Sobre RH e suas demandas

Quando falamos em práticas e políticas de RH o destaque ficou para o nível de exigência nas contratações, avaliações e movimentações. Não há como entrar e se movimentar se você não mostrar competências e resultados.

Uma vez que as pessoas entram, elas sabem que estão numa cultura que valoriza a meritocracia e essa clareza torna o jogo mais fácil.  Você consegue tirar o máximo de cada indivíduo porque ele sabe que vai ser recompensado conforme sua performance.”  Métricas claras, transparência e autonomia são os segredos dessa empresa.

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Processos de RH são claros e disponibilizados através de sistemas informatizados de fácil acesso. Ao que parece, nesse 1 ano, todas as necessidades da Samantha são resolvidas por sistemas que suportam, apoiam e respondem as necessidades e demandas de RH. E para coisas que ela não encontra uma solução ou resposta, ela simplesmente: “Eu abro um chamado e imediatamente sou atendido por um profissional de RH”.

Simples assim.

Sobre o papel da mulher

Samantha é uma pessoa decidida, assertiva, muito focada e com um senso de resultado. Durante a visita e nos intervalos da entrevista ela simplesmente abriu o computador, sentou-se no chão e respondeu as demandas e atividades importantes e no minuto seguinte estava interagindo e conversando sobre tudo. Penso que esse estilo é que faz com que ela se coloque de igual para igual em todos os contextos. “Nunca fui tratada com diferença por ser mulher. Se tenho uma opinião ou se sou consultada, me coloco com firmeza e assertividade, seja onde for, numa reunião com meu chefe ou numa sala com vários interlocutores”.

Nesse momento da entrevista ela compartilha sua experiência como mentora de mulheres e reconhece que em muitas delas percebe uma baixa auto estima e assertividade para se posicionarem, acreditando que um dos fatores limitantes nas mulheres está na maneira como elas se veem e se colocam no mundo.

“Uma grande vantagem que os homens têm é que eles falam o que querem, eles pedem, eles arriscam.”

Seu desejo como mentora é ajudar as mulheres a desenvolver melhores níveis de assertividade e autoestima, condições essenciais para uma maior contribuição e participação nas discussões.

Sobre competências importantes

Ao final da conversa pedi a Samantha que nos desse, a partir de sua experiência de vida e carreira, dicas de competências que considera fundamentais para o crescimento profissional.

Para ela, tudo começa com clareza de propósito e objetivos. “Cabe ao líder, o tempo todo, desenvolver na sua equipe esse senso de propósito”. Esse senso de propósito é essencial para direcionar recursos e organizar prioridades.

Capacidade de focar, ter disciplina e determinação são outras características essenciais.

E termina destacando o quanto é importante trabalhar em equipe e saber colaborar. Em função da complexidade do mundo, as pessoas dependem cada vez mais uns dos outros para realizar seus próprios resultados.

Foi um papo agradável e muito construtivo, estávamos literalmente em casa.