Storytelling: Será que você precisa dele?

Eu sempre tive dificuldade para aprender matérias exatas e na infância sofria para entender a lógica por trás da tabuada. Os professores costumavam passar algumas dicas para decorarmos aquela sequência gigante de números e, ainda assim, na hora da chamada oral eu sempre estava atrasada em relação aos colegas de sala.

Como eu era uma criança muito imaginativa e a educação sempre funcionava por meio da contação de histórias, minha mãe teve a ideia de criar algumas músicas numéricas para que eu conseguisse absorver a tabuada com mais facilidade. Essa tabuada do três é um dos exemplos, em forma de um diálogo na padaria:

“Três, seis, o que quer freguês? Nove, doze, só quero pão doce! Quinze, dezoito, que tal um biscoito? Vinte e um, vinte e quatro, está mal assado. Vinte e sete, trinta, por favor não minta, vinte e sete, trinta, por favor não minta!”

Essa letra com um ritmo musical e bem divertido fez com que eu finalmente compreendesse a tabuada e fosse uma das alunas com a maior facilidade no assunto! Ainda hoje uso esse recurso e me lembro de todas as músicas, com uma recordação boa daquela época.

Isso, meus amigos, nada mais é do que o famoso storytelling. Para facilitar a assimilação, engajar e gerar um vínculo emocional, minha mãe usou, de maneira intuitiva, uma técnica que hoje tem feito muito sucesso nos mais diversos setores.

Afinal, como nasceu o Storytelling?

As histórias existem desde sempre – inclusive nos desenhos feitos pelos homens da caverna – e tomaram maiores proporções e escala com o advindo da máquina de impressão, criada por Gutenberg no século XV.

Com um longo salto na história, podemos observar que a massificação das histórias se deu com a popularização do rádio e da televisão, já no século XX.

Atreladas às informações nos jornais, revistas, rádios e canais de TV, nasciam também as campanhas publicitárias com o objetivo de conectar o público aos produtos das marcas. Com o crescimento constante dos anunciantes, o desafio que os publicitários tinham para atrair e engajar as pessoas também cresceu.

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Anunciar o produto não bastava, era preciso contar uma… HISTÓRIA!

Das mídias tradicionais para o online esse desafio se tornou ainda maior, afinal, o acesso a informação é cada vez maior e atrair o público passou a ser tarefa para bons contadores de histórias.

Eis que o storytelling se populariza no Brasil como uma ferramenta útil não só para as empresas de publicidade, mas para toda e qualquer empresa que queira se conectar de maneira emocional com o seu público.

Quais são os elementos de uma boa história?

Vimos que as pessoas estão sendo cada vez mais bombardeadas com boas histórias e o que antes era privilégio de quem anunciava nos jornais, revistas, televisões e rádios, agora virou algo totalmente acessível! Aliás, o compartilhamento de vídeos via Facebook é um recurso altamente utilizado pelas mais diversas marcas.

Portanto, contar histórias, não basta! É preciso entender quais são os elementos dessas histórias que funcionam, que cativam, que prendem a atenção, que geram lembranças. Para isso, conhecer a estrutura básica por trás de uma boa história irá te ajudar nesse processo!

Para facilitar o entendimento, vou retomar a canção criada pela minha mãe para que eu entendesse e memorizasse a tabuada.

“Três, seis, o que quer freguês? Nove, doze, só quero pão doce! Quinze, dezoito, que tal um biscoito? Vinte e um, vinte e quatro, está mal passado. Vinte e sete, trinta, por favor não minta, vinte e sete, trinta, por favor não minta!”

Ao destrincharmos a letra, o que nós encontramos:

  • Período: duração do diálogo na padaria
  • Personagens: Freguês e vendedor
  • Conflito: não tem o pão doce que o freguês quer
  • Tentativa de resolução do conflito: oferecer biscoito
  • Clímax: freguês acredita que o biscoito está mal assado
  • Fechamento: vendedor ironiza a fala do freguês pedindo que seja realista
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Em uma história de um parágrafo ou em um filme de duas horas, essa será a estrutura básica que você irá encontrar. Uma sequência de conflitos, que envolvem os personagens e leva para um fechamento.

Como sabemos que uma história é fraca? Quando os conflitos não existem e a narrativa não faz uma gangorra entre pontos negativos e positivos. Um exemplo disso é o comercial da família margarina que, de tão perfeita, chega a ser ironizada!

 Você já é um contador de histórias!

Minha mãe, há mais de vinte anos, já utilizava o recurso da história para nos educar. E você provavelmente faz muito isso em seu dia-a-dia e não se dá conta:

  • Quando está exemplificando uma situação com alguma história do passado
  • Quando está criando suposições usando um personagem como exemplo
  • Ao citar referências de filmes, livros, músicas

Tente se recordar agora qual foi a última história que contou para um amigo, em casa, para os filhos e para um coachee.

Essa história possivelmente se passa em um período, tem personagens, conflitos, resoluções e um ponto alto que leva ao fechamento. Se você conseguiu identificar em sua história alguns desses elementos, parabéns, você é um “storyteller”!

Como colocar em prática nos Processos de Coaching

Agora que já sabemos que todas as pessoas contam histórias e que criar boas estruturas é mais simples do que imaginamos, colocar em prática passa a ser um exercício de aplicar esses conceitos com mais recorrência em seu dia-a-dia.

Para isso, proponho um primeiro exercício de observação:

  • O que você precisa explicar e que geralmente é complexo?
  • Quais são as histórias que você tem usado como exemplo e o quanto elas impactam as pessoas?
  • Quais são as mensagens que precisam ser memorizadas e que os seus coachees simplesmente esquecem?
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Contar história é uma via de mão dupla, ao mesmo tempo em que ajuda a pessoa no processo de engajamento e memorização, o trabalho realizado fica muito mais leve e rápido, afinal, não será sempre que precisará retornar aos conceitos que já foram passados.

Além disso, experimente começar a observar cada vez mais as histórias que se apresentam para você: quando está no restaurante e acontece uma situação ao seu lado, como pode utilizar esses personagens e conflitos para exemplificar algum conceito para o seu coachee? Ao assistir um filme, quanto que aquela cena está fazendo uma analogia com a vida de quem está atendendo?

“O gênio não é mais do que aquele que possui a faculdade de perceber as coisas de maneira hora do habitual, ou de se adiantar aos tempos” William James

Um bom contador de histórias é antes de mais nada um bom observador! Portanto, se apropriem de tudo que vivenciam, dos personagens da vida real que conhecem diariamente, do bate papo com o porteiro, da família discutindo atrás de você na fila do supermercado… Sempre reflita sobre o quanto isso pode ser útil para a criação de uma boa história.

Por fim, lembre-se sempre de que qualquer pessoa pode criar um bom storytelling. Hoje eu continuo não gostando de matérias exatas, mas resolvi um grande problema que tinha com os números graças a essa estratégia.

Quais e quantos problemas você também é capaz de resolver usando essa ferramenta que já está “instalada” em você?

Artigo publicado por Flávia Radino na edição 46 da Revista Coaching Brasil (Março/2017)