Coaching para o Futuro e as Novas Economias

Imagine a Planolândia: um mundo 2D, cujos habitantes só conhecem as dimensões do frente/trás e lado/lado. Sem a dimensão do cima/baixo eles não têm a visão do todo, sua relação com o espaço e o tempo é limitada, compreendem apenas o que acontece naquele momento presente e no lugar onde estão. Uma criatura 3D, que estivesse operando na dimensão do cima/baixo seria para eles um gênio e estaria em grande vantagem, pois enxergaria toda a Planolândia e seu funcionamento.

O que estamos vivendo é exatamente isso. Não é crise, é a maior Transição que a humanidade já viveu até o momento. Por quê? Todos nós fomos abruptamente colocados em curto espaço de tempo em outra dimensão: a rede, as TICS, o móbile, nos colocaram em outro espaço e tempo: tudo conectado a tudo, em tempo real e de forma desmaterializada.

Neste novo tempo/espaço da rede tudo é diferente e estão em grande vantagem aqueles que têm visão e métodos para operar nela. Se antes pensamos e executamos de forma sequencial, linear, agora a tecnologia traz uma velocidade frenética em uma dinâmica que é exponencial. A consequência inevitável é a mudança de mentalidade (jeitos de pensar) e hábitos (jeitos de fazer).

O mundo está exponencial, mas nosso corpo, o planeta e as 24 horas do dia seguem sendo lineares. Como resolver esse impasse? O pensamento linear, hierarquizado e o modelo industrial baseado em consumo e competição estão em crise e precisam atualizar seu “sistema operacional”. As ferramentas de planejamento tradicionais ajudam, mas não dão conta da dinâmica das empresas e vida dos empreendedores. Precisamos um conjunto de diferenciais para gerar valor, somado a ferramentas e processos que tragam resultados exponenciais.

Buscando essa exponencialidade chegamos à metodologia da Fluxonomia 4D, sistematizada ao observar que carreiras ou iniciativas exitosas atuam numa conjunção de quatro dimensões, cada uma com seus recursos e resultados próprios. E cada uma delas associada à uma nova economia cuja maestria necessitamos para viver e trabalhar neste novo sistema em rede.

A Economia Criativa gera valor através da aplicação dos recursos da dimensão cultural: talento, linguagem, conhecimentos, experiências, atributos. A Economia Compartilhada gera valor compartilhando (passar do “possuir” ao “usar”) recursos ambientais, tecnológicos ou naturais, disponíveis e ociosos. A Economia Colaborativa gera valor através de recursos sociais: uma rede de pessoas convergindo (crowdsourcing, inovação aberta) em torno de um empreendimento ou marca, num modelo de gestão distribuída. E uma Economia Multivalor que gera valor ao contabilizar os recursos e resultados não apenas monetários e otimizar o mais precioso e escasso dos recursos: o tempo.

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Quando adotamos essa visão em 4 dimensões, é possível revisitar o negócio, perceber o conjunto e identificar em que parte do caminho ele está patinando. Pode ser no cultural/economia criativa, ligada à revelação da proposta de valor, se pecamos na linguagem adotada. Pode ser no ambiental/economia compartilhada: não utilizar os recursos disponíveis, pois não testamos as ferramentas que podem conectá-los permitindo acesso mesmo sem possuir o recurso desejado. Na dimensão social/economia colaborativa as ações de marca podem estar desperdiçando o potencial da rede de stakeholders, por exemplo, por não celebrar com eles cada resultado alcançado. Na dimensão financeira/economia multivalor o gargalo pode estar na otimização do tempo (o recurso capaz de ativar todos os outros para que gerem valor) se a inciativa peca na transparência ou não tem mecanismos para dar crédito ao tempo investido pelas pessoas.

Percebemos que:

  1. A mudança vem através da cultura (dimensão cultural);
  2. São os ativos intangíveis que ativam os recursos tangíveis (dimensão ambiental);
  3. O impacto emerge do trabalho conjunto (dimensão social);
  4. O valor é criado a partir do fluxo gerado com recursos de diferentes naturezas (dimensão financeira);

O coaching para a vida em rede, exponencial e sistêmica leva isso em consideração. Algumas macro percepções úteis:

  • Talento é chave da inovação!

O relatório do Fórum Econômico Mundial (2015) traz em sua primeira página: “O talento, e não o capital,será o fator chave que unirá inovação, competitividade e crescimento no século 21”, mostrando onde o mundo agora está apostando suas fichas.

Análises econômicas do desenvolvimento ultrapassaram a fronteira dos números e devem incluir o comportamento das pessoas, pois a velocidade do avanço das tecnologias impõe mudança rápida de mentalidade. Há 10 anos acreditávamos que veríamos um carro autônomo em 2050. Ele é realidade em 2017. O que imaginávamos que pudesse acontecer em um horizonte de 20 anos, não deverá ultrapassar os 5.

  • “Crença renovada na força da comunidade”.

Somos interdependentes e convivemos com uma recessão global que impacta a vida, empregos, negócios e consumo. Apenas o coletivo será capaz de solucionar as questões ambientais sérias e não resolvidas, além da maior crise humanitária já vivida. Há agora uma revolução silenciosa acontecendo, com uma legião de pessoas em todo o mundo criando novas realidades para si e para os que estão ao seu redor. Inovando enquanto rompem com os ciclos viciosos dos modelos de produção obsoletos, lineares e setoriais e criam ciclos virtuosos exponenciais e interdependentes.

  • Novas formas de resultados financeiros – não só o dinheiro é visto como resultado financeiro.
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Cada vez mais valorizam-se as trocas e reaproveitamento de recursos e de tempo. E a reputação como grande geradora de resultados e valor.

As mudanças profundas em todos os âmbitos trazem o enorme bônus da ampliação de opções e oportunidades. E também o ônus da complexidade: a incerteza e a ansiedade. A falta de referências sobre como perceber e operar nesta nova vida em rede e o excesso (de tudo!) que ela traz obriga indivíduos e empresas à busca por propósito; novas relações sociais e maneiras de trabalhar; a gerar impacto e resultado positivo em suas vidas e na das pessoas ao seu redor. O coach, por sua vez, passa a ter cada vez mais o papel de trazer esta visão sistêmica para o indivíduo. Oferecer ferramentas para que ele vá de um ponto A a um ponto B já não é mais suficiente, pois provavelmente o ponto B mudará tantas vezes no processo, e pode ter tantas combinações, que coach e coachee ficarão completamente perdidos.

Um exemplo simples: uma engenheira bem sucedida quer largar tudo para abrir uma escola infantil, pois quer mais tempo e resgate de talentos artísticos. Apesar de afogada em redes sociais não tem domínio das novas tecnologias. Tenta se adaptar a uma vida mais flexível, porém ainda opera em um paradigma de trabalhar 40 horas por semana. Com toda esta angústia ela bate à porta do coach (ou ao seu Skype)!

Se nossa engenheira negar seus conhecimentos e experiência em engenharia para abrir a escola infantil pode ficar feliz por estar trabalhando com propósito, mas estará extremamente angustiada pelo mercado novo e complexo. Somado ao enorme impacto em toda a sua vida, relações, finanças, rotina, o que era um sonho pode virar um grande “pesadelo sistêmico”.

Ao oferecer ao coachee uma visão das novas economias, ajudando-o a reconhecer seus recursos em cada uma das dimensões, o coach amplia as possibilidades e torna o processo de coaching uma espiral evolutiva, muito mais do que simplesmente alcançar o Ponto B. Por exemplo, em uma visão das novas economias, o coachee pode reconhecer:

  • Dimensão cultural/economia criativa (o software): conhecimentos em todos os âmbitos, experiências, línguas, viagens, talentosetc.
  • Dimensão ambiental/economia compartilhada (o hardware): aquilo que estrutura sua vida e rotina, de alimentação e saúde a espaços e equipamentos subutilizados que podem servir a outras pessoas ou iniciativas.
  • Dimensão social/economia colaborativa: amizades, parcerias, relações comerciais, clube, igreja, e como podem ser ativados para contribuir com seu propósito;
  • Dimensão financeira/economia multivalor: dar clareza aos reais resultados que deseja – não apenas o dinheiro, mas ter mais tempo, gerar recursos através de trocas, gerar reputação através de registros de atividades e ideias (site, blog).
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Com esta visão, fica mais fácil conectar sistemicamente o que o coachee realmente deseja e materializar este desejo. Talvez a motivação da nossa engenheira seja mais tempo com os filhos, relações mais profundas com os amigos, pegar menos trânsito e ter uma escolinha mais próxima da sua casa.

Na visão sistêmica da Fluxonomia 4D ela pode começar por usar seus recursos culturais para se aproximar de pessoas com as mesmas necessidades. Em seguida, abrir o sítio ocioso da família (dimensão ambiental) para compartilhar finais de semana com estes pais e filhos, em que cada um leve um pouco dos seus talentos artísticos. Este aprendizado lúdico ativa a dimensão social através da celebração. Os registros e fotos circulam nas redes sociais e geram reputação trazendo resultados na dimensão multivalor. Ela prototipou um mínimo produto viável de seu negócio usando recursos já disponíveis e segue nessa lógica até aprender a lidar com o novo mercado. Além disso, vai progressivamente ativando as diferentes dimensões da sua própria vida e pode fazer as análises e compreensão de resultados utilizando as mesmas 4 dimensões. Ela agora está no centro da espiral, observando sua vida a partir de um ponto mais estável.

Este exemplo é pequeno, mas a parte contém o todo. A visão de futuro através das novas economias pode ser tanto aplicada nos processos de coaching pessoais e empresariais quanto a projetos de desenvolvimento de países inteiros, convergindo recursos, energia. E os resultados são exponenciais!

Artigo publicado por Lala Deheinzelin, Patrizia Bittencourt e Thianne Martins na edição 46 da Revista Coaching Brasil (Março/2017)